Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Reflexão sobre a Preguiça (Parte II)

 
Esta é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui:Reflexão sobre a Preguiça (Parte I)

A partir da reflexão anterior, chegamos ao ponto de que a preguiça é um fenômeno psíquico através do qual o impulso de ação é ativamente limitado ou repelido.

Partindo do pressuposto da eficiência da psique humana, nenhum fenômeno psíquico é criado sem que haja necessidade para tal, pois representaria um gasto desnecessário de um recurso finito e que tem um objetivo específico, nossa individuação. Se nossa psique cria um mecanismo que age ativamente para impedir a ação, deve haver alguma razão.

Retomando a reflexão anterior sobre orgulho (pode ser acessada clicando aqui Reflexão sobre o Orgulho (Parte I) e aqui Reflexão sobre o Orgulho (Parte II)), assumirei que a preguiça também funcione como um mecanismo de defesa psíquica. Mas não uma defesa do cansaço em si, pois isso seria natural e até benéfico, mas de um desgaste imaginado ou pressuposto que não necessariamente está calcado na percepção do real ou do agora, ou que está superestimado.

 


Analisando como a preguiça age em mim, percebo que as situações em que a preguiça mais me afeta são exatamente aquelas nas quais eu precisaria me expor mais do que eu gostaria. Não é, necessariamente, a ação em si que estou evitando, e sim o envolvimento intelectual ou emocional com aquela questão e, eventualmente, precisar revelar meus valores, ideias e minha visão de mundo, me colocando numa posição de vulnerabilidade diante do mundo.

Aprofundando ainda mais, as situações mais críticas são aquelas que desafiam habilidades que considero que não tenho ou que sei que estão mal desenvolvidas. A preguiça parece ser, dessa forma, meu escudo contra o confronto com meus limites.

Nesse sentido, a preguiça parece exercer em mim o papel da inércia na mecânica dos corpos, uma força que me faz permanecer no estado atual, de não movimento. Por analogia, imagino que em outras situações a força da preguiça me mantenha em movimento contínuo, de forma que não consiga, de fato, parar para refletir sobre o que estou fazendo. Essa segunda manifestação costuma acontecer em aspectos específicos da minha vida, principalmente relacionados à práticas e estudos espirituais.

Acredito ser possível entender, então, a preguiça como sendo o reflexo do desequilíbrio da disposição para refletir, reavaliar e, caso necessário, modificar padrões, ideias e sentimentos. Neste sentido, acaba sendo uma peça chave nos processos de auto aprimoramento.

Se, como resultado lógico da reflexão posta, temos que a preguiça é uma força relacionada com nosso contato com nossos limites, uma espécie de guardiã dos nossos limiares, das bordas de nós mesmos, acredito que esta seja uma chave importante para como trabalhar essa energia.

Cruzar o limiar parece tentador, possibilita o contato com o desconhecido, com o que está além do véu, ao mesmo tempo que abre caminho para que nos percamos na multiplicidade de possibilidades (caos absoluto). Se há uma sentinela que protege essa passagem, precisamos aprender a lidar com ela, negociar nossas passagens, sempre precavidos contra as adversidades que possamos encontrar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Reflexão sobre a Preguiça (Parte I)

Quando ouço a palavra preguiça, a primeira imagem mental que me vem (além do fofíssimo bicho-preguiça, claro) é a de estagnação, falta de movimento, um estado de espírito no qual não há ímpeto de ação. 


Buscando na memória, a preguiça evoca diversos momentos nos quais essa não-ação é enxergada como algo inerentemente natural, prazeroso e sadio (“uma tarde preguiçosa de chuva”, “uma rede preguiçosa pra deitar” etc). No entanto as considerações negativas sobre a preguiça são muito mais abundantes, sendo que diversas palavras que estão em seu campo semântico são utilizadas como xingamento, como vagabundo, vadio etc.

Partindo disso, me surgem duas perspectivas para seguir com a reflexão. Na primeira a preguiça se originaria da ausência de movimento, de forma passiva, quando não há estímulo suficiente. Na segunda a origem é a aversão (e não a simples ausência) de movimento, sendo que neste caso a preguiça adquire um caráter ativo, pois mesmo diante da possibilidade de ação, há uma força intrínseca que a anula.

Como ponto de partida, partirei do entendimento da preguiça como sinônimo de não-ação. Também irei considerar que essa tipificação da preguiça como ativa e passiva, baseada na aversão ou na simples ausência de ação, seja relevante.

A não-ação faz parte dos fenômenos naturais observáveis, sendo de vital importância para os processos naturais. São momentos interciclos, nos quais as condições para reinício estão sendo gestadas. Tomo a liberdade de citar as palavras de Mauro Iasi, em seu poema Aula de Voo, quando diz que “para o voo é preciso tanto o casulo como a asa”. Assim são os momentos que podemos ver no inverno, na lua nova, nas entre-safras etc. 

Considerando que a humanidade, assim como toda a criação divina, foi feita à imagem e semelhança de Deus, podemos partir da análise que os ciclos naturais refletem a natureza divina e, de forma análoga, também dos seres humanos. Se a natureza tem seus ciclos de ação e não-ação, desta forma, podemos entender que com a humanidade também acontece o mesmo. 


Porém, é importante levar em conta que estes momentos de não-ação são, via de regra, menores que os de ação e que o mesmo deve ser verdade para os seres humanos. Os momentos de descanso precisam ser menores do que os momentos de trabalho.

Além disso, é vital que lembremos que não-ação absoluta é impossível. Sempre estamos em algum tipo de movimento, mesmo que seja um movimento ativo e consciente de conservação de energia ou defesa contra possíveis ameaças.

Desta forma, me parece insuficiente a associação da preguiça com os momentos de não-ação, uma vez que, sendo um conceito típico da natureza psíquica humana, não pode ser ligado aos fenômenos naturais de forma tão automática. Em outras palavras, a não-ação é natural e saudável, mas a preguiça não o é necessariamente, visto que não são da mesma natureza.

O que define, então, a preguiça? Qual sua natureza última? E, principalmente, o que faz com que seja considerada por muitas tradições espiritualistas e religiosas como um defeito capital?

Retomarei aqui a divisão inicial entre a preguiça passiva e ativa, com base na ausência ou na aversão à ação. Se a ausência de ação é natural e faz parte integrante dos ciclos naturais, sendo, como já visto, de outra natureza em relação à preguiça, a associação entre essas duas coisas não me parece, de fato, válida. Assim, a ideia de preguiça está intrinsecamente ligada à sua forma ativa (na verdade sua única forma), na qual o fator definidor é a aversão ou recusa à ação e ao trabalho.

Acredito ter chegado num ponto importante da reflexão, porém essa ideia ainda não explica como a preguiça se origina, como age na psique humana e, o mais importante, como combatê-la.

Na continuação desta reflexão, tentarei desenvolver estas ideias. Até lá.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

As linhas de trabalho na Umbanda (parte I)

Os espíritos que se manifestam na Religião de Umbanda para realizar o trabalho caritativo se dividem, segundo seu nível vibratório, em diversos agrupamentos que formam uma cadeia hierárquica de comando, lembrando a organização militar. 

A primeira grande divisão dos espíritos é entre as polaridades da Direita e da Esquerda. Para entender sobre essa divisão acesse o artigo Direita e Esquerda na Umbanda.

A Segunda divisão organiza os espíritos em Linhas de Trabalho. Caboclos, Pretos-velhos, Erês, Exús e Pombogiras são, provavelmente, as linhas mais conhecidas, inclusive por não praticantes da Religião. 

Além destas temos os Baianos, Boiadeiros, Marinheiros, Ciganos, Malandros e Exús-mirins como linhas bastante conhecidas, mas que não estão presentes em todos os terreiros. Temos ainda linhas como o Povo do Oriente, os Cangaceiros, os Piratas e os Africanos, que apesar de presentes em muitos terreiros, não são completamente vistas como linhas de trabalho propriamente ditas. 

Por último, temos linhas originárias de outros sistemas de crenças que acabam se manifestando nas giras, devido à abertura dos e das comandantes astrais das casas. Podemos citar a linha dos Médicos, dos Frades (Semiromba), dos Mestres e Mestras da Jurema, entre outras.

As linhas de trabalho são compostas por espíritos que se apresentam em arquétipos presentes no inconsciente coletivo, plasmando seus corpos astrais com determinadas características simbólicas escolhidas para facilitar a transmissão de determinados ensinamentos, mas que não representam, necessariamente, encarnações passadas vividas pelos espíritos.

Linhas de trabalho na Direita


Nas linhas de trabalho da direita, os arquétipos apresentados representam povos, etnias e grupos sociais marcados por seu modo de vida, seu código de ética, sua visão de mundo e por sua história social próprios, que os colocam apartados da sociedade ocidental, e que expressam um corpo ideológico e um conjunto de conhecimentos únicos e inerentes àqueles grupos.


Desta forma, quando falamos da linha dos caboclos, estamos falando dos povos ameríndios, de sua relação com a terra e com a natureza, sobre caça, pesca, coletas de alimentos nas matas, sobre agricultura natural. Estamos falando, ainda, de organização tribal, na qual a divisão de tarefas é clara e todos sabem o papel que devem desempenhar para o bem da comunidade. O mesmo acontece com todas as demais linhas. 


Se quisermos nos aprofundar na simbologia, nos ensinamentos e na proposta de trabalho de cada uma das linhas, precisaremos entender como os povos que embasam estes arquétipos vivem (ou viviam).

As linhas que tradicionalmente compõem a direita são: caboclos, boiadeiros, pretos-velhos, erês, baianos, marinheiros, ciganos e malandros.

Linhas de trabalho na Esquerda

Se entendemos que a esquerda trabalha nas trevas para trazer a luz, entendemos que as entidades que realizam este trabalho precisam usar de energias específicas de proteção para não se contaminarem com as energias ambientais. E que, assim como nas profissões humanas que lidam com situações extremas, necessitam de muito preparo e condicionamento mental. 

Quem realiza este trabalho são os Exús (também chamados de Guardiões, ou Compadres), as Pombogiras (Guardiãs, Moças ou Comadres) e os Mirins (Exú-Mirim e Pombogira-Mirim).

Ao contrários das linhas da direita que apresentam arquétipos fundamentados em grupos étnico-sociais específicos, que nos ensinam sobre a ética e visão de mundo próprios de seu povo, na esquerda o arquétipo base são os homens e mulheres da nossa própria sociedade, que, por qualquer motivo, não se enquadravam dentro da ordem social estabelecida.

Estes arquétipos destoantes e subversivos são bem mais abrangentes que os da direita, comportando espíritos de diversas etnias, origens, classes sociais, graus de escolaridade, religiões, profissões etc.

É através das linhas da esquerda que serão introduzidos na Umbanda conhecimentos místicos, esotéricos e mágicos de sistemas mais formalizados (escolas de mistérios).

Findada este breve introdução, na próxima parte serão iniciadas as descrições das linhas.

Até lá.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Abram caminho para o rei Xangô

Dia 24 de junho é um dos dias escolhidos para homenagear Xangô na Umbanda. A data se deve ao sincretismo com São João Batista. Essa associação se dá com a qualidade jovem de Xangô, o senhor do Fogo e do Trovão, cuja representação principal é a fogueira. 

Podemos entender o fogo como o caráter impetuoso, corajoso e devastador do jovem rei guerreiro, que quer ampliar e consolidar seu reinado e cuja fúria é letal para seus inimigos.

Na Umbanda estamos mais acostumados com a figura do Xangô mais velho, sincretizado com São Jerônimo, que representa os arquétipos do juiz e do rei justo e provedor, aquele que garante a subsistência do grupo.

Essas duas faces da mesma força nos ensina uma lição preciosa: é do ímpeto do jovem guerreiro que nasce a sabedoria do legislador. Isso lembra aquela história de um mestre zen que teria dito a seu discípulo que as boas escolhas são provenientes da experiência, e que esta é proveniente de más escolhas.



A chave que nos é dada por Xangô é a da transformação do ímpeto e da fúria juvenis em sabedoria equilibradora, fonte de justiça pra nós e para a comunidade ao nosso redor.

Que nosso Pai Xangô nos ajude a sermos cada vez mais justos em nossas ações, sentimentos, pensamentos e intenções. 

Kaô Kabecilê!

Pra finalizar, segue a excelente letra da canção Obá Iná, de Douglas Germano, para louvação de nosso Pai Xangô


Abram caminho para o rei
Sorriam em vez de se curvar
Ele é justiça, ele é a lei
Que fez pra nos levantar

Pra nos por em pé, nos erguer
E lançar pra Orum nosso olhar
Não há justiça se há sofrer
Não há justiça se há temor
E se a gente sempre se curvar

Kaó kabiecilè Xangô oba iná

Abram caminho para o rei
Que se anuncia em um trovão
Que bravo, escreve o que errei
Cuspindo fogo pro chão

Labareda pra eu me consertar
Fogo pra me aquecer de perdão
Não há justiça sem ceder
Não há justiça sem amor
E se a gente nunca se entregar


Kawó kabiecilè Xangô oba iná

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Os orixás na Umbanda (parte III)

Este texto é a terceira e última parte da apresentação dos Orixás na Umbanda. A primeira e segunda partes podem ser acessadas aqui: Os Orixás na Umbanda (Parte I) e aqui Os Orixás na Umbanda (Parte II) , respectivamente.

Após a introdução, e as descrições sobre os Oborós (Orixás masculinos), seguem as descrições das Yabás (Orixás Femininos) mais comumente cultuadas na Umbanda. As informações apresentadas podem variar conforme as diferentes doutrinas.


IANSÃ
Orixá dos ventos e das tempestades, Iansã é a senhora das nuvens de chuva, aquela que direciona o que receberá, ou não, as águas celestes (emoções e sentimentos superiores).


Sua energia é impulsionadora, expansiva, disciplinada ao mesmo tempo intempestiva. Ela agita o que está parado, derruba o que não tem raízes, revela o que está oculto, destrói aquilo que não é essencial, transmutando pelo fogo, para o novo renasça.


Traz os arquétipos de mãe disciplinadora e de Guerreira. Com sua espada e escudo em mãos, nos ensina a lutar por tudo o que acreditamos ser o certo.  Por estar ligação à energia de mudanças bruscas, tende ao exagero no uso de força, à falta de tato social, e a dificuldade de lidar com rotinas repetitivas.



Cores: amarelo / vermelho / laranja / rosa
Sincretismo: Santa Bárbara
Elemento: ar, fogo e água (chuvas)
Pontos de força: bambuzais e campos abertos.
Domínios: movimento, transformações, estímulo, quebra de padrões cristalizados
Símbolo: Espada, chifre de búfalo e iruquerê (abanador feito da cauda de cavalo)
Ervas: espada de Santa Bárbara, pára-raio, eucalipto, pitangueira, laranjeira
Saudação: Eparrei Oyá!


OXUM
Orixá das águas doces, Oxum é a senhora da fertilidade, do amor e do prazer. Representa os aspectos benéficos das águas, que matam a sede, abrandam o calor e regam as plantações. 


Sua energia é alegre, animadora, amorosa, delicada e muito autoconsciente. Com seu espelho voltado para si, nos ensina a olhar pro mais profundo de nós e a amar tudo o que vemos nele refletido.


Representa os arquétipos da mulher jovem e da musa inspiradora. Dona do ouro, das pedras preciosas também a elegância, a riqueza e a beleza, mostrando que os prazeres da vida precisam ser apreciados. Por carregar energias ligadas à beleza, ao prazer e as emoções, pode desviar-se para a vaidade, a luxúria e a manipulação emocional.


Cores: amarelo (ou  dourado) / cor de rosa / azul escuro 
Sincretismo: Nossa Senhora da Conceição / Nossa Senhora Aparecida
Elemento: água doce
Pontos de força: rios e cachoeiras
Domínios: amor, prosperidade, fertilidade, elegância, gestação e maternidade
Símbolo: Abebê (espelho) dourado
Ervas: rosas, camomila, erva-doce, artemisia, malva, lírio do brejo
Saudação: Ora Yeyé ô!  / Aieieô!


IEMANJÁ
Orixá das águas salgadas, Iemanjá é a senhora da vida, da maternidade e do acolhimento. Com seu espelho voltado para para fora, nos ensina a olhar os demais como realmente são, aceitar e acolher tudo o que ali esteja refletido.


Sua energia é criativa acolhedora, cuidadosa, receptiva, tranquilizadora. Iemanjá rege a harmonia familiar, seja entre os parceiros, seja entre pais e filhos ou todos que formam laços sentimentais profundos (família do coração).

Representa os arquétipos da mãe cuidadosa e da rainha abnegada. Mãe de todos os peixes, a quem criou para que sua casa nunca esteja vazia e sempre tenha a quem cuidar. Por estar ligada ao cuidado com o outro, pode facilmente negligenciar a si mesma e sobrecarregar quem está sob seu cuidado.

Cores: branco / prata / azul claro
Sincretismo: Nossa Senhora dos Navegantes / Nossa Senhora da Candeias
Elemento: água salgada
Pontos de força: mar, grandes rios, grandes lagoas
Domínios: maternidade, geração, família, saúde mental, acolhimento, hospitalidade 
Símbolo: Abebê (espelho) prateada
Ervas: rosa branca, pata de vaca, manjericão, erva de bicho, alfazema 
Saudação: Odoyá! / Odocyá! / Odocyaba!


NANÃ BURUQUÊ
Orixá da lama, das cavernas e da água subterrânea, Nanã Buruquê é a senhora da noite, da magia, da memória e dos conhecimentos ancestrais. Está ligada ao ciclo de morte, vida e ressurreição, sendo responsável por apagar as memórias de uma encarnação para a outra, possibilitando que as experiências vividas não interfiram nessa nova jornada.


Sua energia é lenta, paciente, restritiva, castradora, mantenedora e preservadora. Rege os locais onde a terra e a água se mesclam, como pântanos, lamaçais, e manguezais, nos quais decompõe o que já não tem mais vida, e disponibiliza os nutrientes para serem reaproveitados.


Representa os arquétipos de Anciã (velha sábia) e de Feiticeira. Está ligada à memória (e ao esquecimento), ao inconsciente coletivo, bem como à decantação emocional (águas profundas). Por estar ligada à manutenção das tradições e valores ancestrais, tem dificuldade de aceitar mudanças e agir com ímpeto.


Faz parte dos Orixás de origem no Daomé, sendo anterior aos Orixás Yorubanos. Seu culto é anterior à idade do ferro, razão pela qual muitas tradições não utilizam este metal nos trabalhos dedicados a ela.


Cores: roxo / lilás / anil
Sincretismo: Santa Ana
Elemento: terra (lama) e água (pântanos, manguezais, lagoa e garoa)
Pontos de força: poço, pântano, manguezal, cemitério
Domínios: vida e morte, mistérios profundos, ancestralidade, depuração emocional e energética. 
Símbolo: Ibiri (cetro de hastes de palmeira) 
Ervas: manacá, cebola roxa, manjericão roxo, folha da costa, lírio do brejo
Saudação: Saluba!

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Os Orixás na Umbanda (Parte II)

Este texto é a continuação do texto que pode ser acessado clicando aqui: Os Orixás na Umbanda (Parte I)

Após a introdução sobre os Orixás na Umbanda, seguem breves descrições sobre os Oborós (Orixás masculinos) mais comumente cultuados na Umbanda. As informações apresentadas podem variar conforme as diferentes doutrinas.

OXALÁ
Considerado o mais importante dos Orixás dentro do culto da Umbanda. Representa a Fé, Espiritualidade, Paciência, Paz, Ordem e Harmonia. Oxalá é alheio a toda a violência, disputas, brigas, gosta de ordem, da limpeza, da pureza. 

Representa o arquétipo Crístico, sendo o grande exemplo a ser seguido por todos os umbandistas. Por conta disso, muitas casas de Umbanda não reconhecem que Oxalá possa ter filhos, pois todos na Umbanda já seriam filhos dele.

As histórias que relatam a criação do mundo retratam a figura de Oxalá, que foi o Orixá incumbido por Olodumare para descer do mundo espiritual (orun) para criar o mundo físico (aiyê) e os homens.   



Cor: branco leitoso ou cristal (translúcido)
Sincretismo: Jesus Cristo
Símbolos: opáxoró (bastão de prata), pomba, pemba (giz) branca
Elementos: ar (atmosfera e céu)
Pontos de força: mirantes, alto de montanhas, chapadas
Domínios: poder procriador masculino, criação, mundo espiritual
Ervas: boldo, anis-estrelado, folha da costa, rosa branca
Saudação: Epa Babá! / Auê Babá! / Xeu Epá Babá! 

EXÚ
Figura mais controversa do panteão dos Orixás, Exú é o mensageiro entre os homens e os deuses. O mais humano dos Orixás é, erroneamente, associado ao diabo cristão; na realidade Exú contém em si todas as contradições e conflitos inerentes ao ser humano. Não é totalmente bom nem totalmente mau; assim como o homem é capaz de amar e odiar, unir e separar, promover a paz e a guerra.

Representa os arquétipos do mensageiro e do provocador (trickster), simbolizando nossas lutas internas. Guarda as entradas (portais) de todos os lugares, assim como as encruzilhadas, principalmente as de terra. É o primeiro a ser reverenciado, pois sem ele não é possível acessar o sagrado. 

Assim como Oxalá, muitas casas não consagram filhos a Exú, pois ele representaria lutas universais da humanidade que seriam mais coletivas que pessoais. Muitas casas também não apresentam culto direto a este Orixá.




Cores: preto e vermelho.
Sincretismo: Santo Antônio
Símbolos: falo (pênis) ereto, tridente, encruzilhada, figa
Elementos: terra e fogo.
Pontos de força: encruzilhada (principalmente de terra), mercados e feiras
Domínios: comunicação, sexo, magia, comércio, subversão das regras injustas.
Ervas: alho, cebola, pimenta, mamona
Saudação: Laroye! / Mojubá!

XAPANÃ
Orixá da saúde e das doenças é também o senhor da terra. Seu nome é carregado de medo e mistério, sendo geralmente denominado por suas duas polaridades energéticas: Obaluayê (expansivo) e Omulu (restritivo). Tem domínio sobre o ciclo de vida, morte e da ressurreição, regendo, desta forma, a evolução encarnatória dos seres. 

Representa os arquétipos de ancião e de curandeiro. Sua energia é extremamente telúrica, lenta e pesada. Hospitais, necrotérios e outros locais ligados à vida e morte estão sobre sua regência. É também um dos regentes da calunga pequena (cemitério).

Faz parte dos Orixás de origem no Daomé, sendo anterior aos Orixás Yorubanos. Seu culto é anterior à idade do ferro, razão pela qual algumas tradições não utilizam este metal nos trabalhos dedicados a ele.




Cores: amarelo e preto / branco, vermelho e preto / roxo.
Sincretismo: São Lázaro / São Roque
Elemento: terra
Pontos de força: cemitério, praia, beira de poço
Domínios: doenças epidêmicas, saúde, vida e morte, evolução
Símbolo: xaxará, azé (manto de palha) e cruz
Ervas: quaresmeira, canela de velho, manjericão roxo, gengibre
Saudação: Atotô! / Omulu iê!

OGUM
Orixá do ferro e senhor da guerra. Ogum é o principal representante da energia marciana na Umbanda. É ele quem abre os caminhos dos filhos em momentos de dificuldade. 

Representa os arquétipos do ferreiro e do guerreiro. Ogum foi o primeiro a dominar a metalurgia, que ensinou aos homens, possibilitando-lhes melhorias tecnológicas que modificaram por completo o modo de vida da humanidade. Por esse motivo é o senhor da tecnologia e da inovação.

A energia de Ogum é a energia do movimento, da expansão, do avanço e do progresso. Por esse motivo tem dificuldade em lidar com as tradições e práticas ancestrais.




Cores: vermelho / azul escuro / verde escuro
Sincretismo: São Jorge / Santo Antônio
Elemento: ar e fogo
Pontos de força: estradas, estradas de ferro, minas de metais
Domínios: guerra, caminhos, conquista, tecnologia, metalurgia, agricultura
Símbolo: espada, lança, bigorna e outras ferramentas feitas de metal.
Ervas: espada de São Jorge, peregum verde, abre-caminho, aroeira branca,  
Saudação: Ogunhê! / Patacori!

XANGÔ
Orixá do fogo e do trovão, Xangô é o senhor da  justiça e do equilíbrio. Rege sobre as montanhas e pedreiras, locais que a energia de concretização e cristalização se fazem visíveis.

Seus arquétipos são do juiz e do rei justo e provedor, aquele que garante a subsistência do grupo. A justiça de Xangô não é cega, pois é de ordem divina, nem é vingativa, agindo de forma imparcial. Xangô entrega a cada um conforme seu merecimento.

Como sua energia está associada a firmeza, a concretização, ao não deixar-se levar pela opinião alheia. Quando desequilibrada, provoca teimosia, inflexibilidade e arrogância.



Cores: marrom / vermelho / vermelho e branco
Sincretismo: São Jerônimo / São João Batista / São Pedro
Elemento: fogo e terra (rochas)
Pontos de força: pedreiras
Domínios: justiça, equilíbrio, diplomacia, poder estatal, questões jurídicas 
Símbolo: machado duplo, machado de pedra, coroa,
Ervas: aroeira, arruda, picão-preto, pimenteira, romanzeiro, 
Saudação: Kaô Kabecilê!

OXÓSSI
Orixá da caça e senhor das matas, rege o contato com as plantas e animais e todas as atividades humanas relacionadas. As florestas, que são parte de seu domínio, estão relacionadas com aspectos sombrios da alma e com os espíritos de antepassados. Dessa forma, Oxóssi estimula nossa capacidade de apreender com as experiências dos demais e com a história, como forma de nos auto lapidar. 

Seu arquétipo é o do caçador, sendo conhecido como o “caçador de uma flecha só”. Sua grande perícia na arte da caça se deve ao grande conhecimento que possui sobre a dinâmica da floresta e seus habitantes, bem como ao domínio sobre si mesmo, pois a caça exige austeridade e entrega.

Sua energia é rápida e dinâmica, mas extremamente focada e disciplinada. Por reger uma atividade solitária e que precisa ser feita em silêncio, tem dificuldade no contato social e pode tender ao instinto de isolamento social.




Cores: verde claro / azul turquesa
Sincretismo: São Sebastião / São Jorge
Elemento: terra (vegetação)
Pontos de força: florestas e clareiras
Domínios: caça, fartura, conhecimento, sabedoria, agricultura 
Símbolo: arco e flecha, iruquerê (abanador feito da cauda de cavalo)
Ervas: samambaia, alecrim, cipó de caboclo, todas as frutíferas
Saudação: Oké Aro! / Arolé! 

Na terceira e última parte do texto, serão trazidas descrições sobre as Yabás (Orixás femininos).

Até lá.