segunda-feira, 27 de abril de 2020

Reflexões do contemporâneo: a Fábula dos Porcos Assados

O cenário atual se apresenta como um momento crucial para repensarmos o modo como encaramos a realidade que nos cerca.

É possíveis construirmos novas formas de enxergar o mundo, novos modelos educacionais, novas formas de relacionamentos humanos? Ou será que o mundo sempre foi, é e será imutável?

Para provocar está reflexão, recomendo a leitura da fábula dos porcos assados. Pretendo retomar está discussão em breve, de forma mais pessoal. Mas por enquanto, deixo aqui a fábula completa para leitura.
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Certa vez ocorreu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, que até então só comiam a carne crua, experimentaram a carne assada e acharam que era deliciosa. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque. O tempo passou, e o sistema de assar porcos continuou basicamente o mesmo.


Mas as coisas nem sempre funcionavam bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas, podiam ser atribuídas ou à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam, ou à inconstante natureza do fogo, difícil de controlar, ou às árvores excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade de chuva, ou... 

Como era um procedimento montado em grande escala, isso preocupava muito a todos, porque, se o sistema falhava, as perdas ocasionadas eram igualmente grandes. Milhões de pessoas alimentavam-se só de carne assada e também muitos eram os que tinham ocupação nessa tarefa. Portanto, o sistema simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, à medida que se fazia em maiores escalas, mais parecia falhar e maiores perdas parecia causar. 
Já era um clamor geral a necessidade de se reformar profundamente o sistema. Para isso, todos os anos, realizavam-se congressos, seminários e conferências para achar a solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo, porque no ano seguinte repetiam-se os congressos, os seminários e as conferências. E assim sempre. 
As causas eram difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: havia maquinário diversificado e profissionais de diversos ramos de conhecimento. Havia indivíduos dedicados a acender – os incendiadores. Havia incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos, diurnos, especialistas para cada estação.  Havia especialistas em ventos – os anemotécnicos. Havia um diretor-geral de Assamento, um diretor de Técnicas Ígneas, um Administrador Geral de Florestas Incendiáveis, e uma Comissão Nacional de Treinamento em Porcologia.
Eram milhares de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estudando a importação de melhores árvores, além de pesquisar idéias operativas, por exemplo, como fazer buracos para que neles caíssem os porcos. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno. Poucos especialistas estavam de acordo entre si e cada um tinha investigações e dados para provar suas afirmações. 
Um dia, um incendiador chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era fácil de ser resolvido – bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.
Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor-geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e disse-lhe: 
“Tudo o que o senhor propõe está correto, mas não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? E com os acendedores de diversas especialidades? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo?”
“Não sei”, disse João, encabulado.
“O senhor percebe agora que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que, se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo? Que autores falam isso? Que autoridade há para avaliar sua sugestão? ”
João continuava ouvindo, em silêncio.
“O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas? O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros de bosques já preparados? 
“Não sei, senhor.”
“Bem, o simples fato de possuir valiosos e extraordinários engenheiros em Porcopirotecnia indica que o sistema é bom. E o que fazer com nossos engenheiros em Porcopirotecnia? ”
“Não sei”.
“Viu? O senhor tem é que trazer solução para certos problemas: como treinar melhores anemotécnicos, como conseguir acendedores do Oeste mais rápidos, como fazer estábulos de oito maiores. Tem que melhorar o que temos e não mudá-lo. É disso que o país necessita. Ao senhor falta sensatez!
“Realmente, estou perplexo!”, falou João. 
“Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia – isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo.”
João Bom-Senso, coitado, não falou mais um “a”. Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu. Por isso é que até hoje se diz, quando há uma tentativa de melhorar um sistema, faz falta o Bom-Senso.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Reflexão sobre o Orgulho (Parte I)

Antes de iniciar a reflexão proposta, dois sentidos paradoxais sobre este tema me vieram a cabeça: em sentido negativo, orgulho como uma falha de caráter na qual algumas características dos indivíduos são demasiadamente exaltadas, sendo encarado como um pecado; e em sentido positivo, orgulho como sinônimo de resistência identitária, na qual características que sempre foram usadas para oprimir e reprimir grupos minoritários são ressignificadas e usadas para empoderamento dos membros destes grupos, sendo encarado neste caso como uma virtude.

Qual desses dois sentidos seria o verdadeiro? Seria possível definir o orgulho como sendo essencialmente bom ou essencialmente mal? Este me pareceu ser o primeiro aspecto para ser considerado nesta reflexão.

Como ponto de partida, observando como o Orgulho age em minha própria vida, tive a percepção que ele constitui uma armadura emocional, e como tal, sua função seria proteger algo que está em seu interior dos perigos (reais ou imaginários) oriundos do lado externo. Deste modo, e extrapolando minha própria experiência, o orgulho serviria para evitar o sofrimento emocional e sua origem seria a necessidade de segurança e estabilidade emocional.





Enxergar o orgulho como uma armadura apresenta um aspecto importante para esta reflexão: a ideia de que há algo de frágil que faz necessária a existência de uma estrutura de proteção emocional. Mas o que estaria sendo protegido pelo orgulho? O que de vulnerável está guardado em seu interior?

Uma primeira resposta seria que o orgulho está protegendo nossa essência, ou nosso Self, portanto a totalidade de nossa psiquê, e neste caso, ele teria uma função nobre e justa, pois, se nosso Self estiver fragilizado, dificilmente conseguiremos expressar e vivenciar quem realmente somos. Mas isso significaria reconhecer tanto que a essência humana é intrinsecamente frágil e vulnerável, quanto que o orgulho seria maior que nossa essência, a ponto de envolvê-la para lhe oferecer proteção. Nenhum dos pontos levantados me parecem verdadeiros.

Poderia ser, então, o ego que está sendo protegido? O ego pode ser entendido como o representante do nosso Self num nível inferior e também como o mediador da nossa consciência, o guardião daquilo que escolhemos conhecer e ignorar. Desta forma, me parece ser mais propício que ele, ao contrário do Self, necessite de proteções.

Seguindo este linha de raciocínio, o orgulho serviria para proteger nosso ego em seu processo de mediação da consciência, o que, de certa forma, também pode se visto como um aspecto auspicioso.

Mas essa ideia apresenta outro ponto a se considerado. Muitas vezes nos prendemos dentro de casa, cercados por cercas, alarmes e câmaras, em nome de uma falsa sensação de segurança, sem nos darmos conta que estamos nos deixando levar pelo pavor e deixando de viver as potencialidades que a vida “do lado de fora” pode nos proporcionar. Viver assombrado pelo medo, de forma que fiquemos enclausurados e constantemente apreensivos, não é nem de perto o que significa sentir-se seguro.

O orgulho, neste perspectiva, embora ofereça um certo grau de segurança emocional para nosso ego, também funciona como um fator de aprisionamento ou de limitação de movimento. Nosso ego, neste caso, terá dificuldades de realizar seu movimento de rumar em direção à sua potencialidade máxima (alinhamento com o Self), pois há uma barreira que impede este movimento de expansão.

Da mesma forma que sentimos a necessidade de protegermos nossas posses (casas, carros etc) motivados pela percepção de insegurança em nossa realidade, nosso ego cria proteções emocionais baseados na sensação de insegurança vivenciadas por nossa psiquê. Essa insegurança pode ter razões muitas vezes inconscientes, e o processo de formação e embrutecimento do orgulho, assim como de outras defesas psíquicas, muitas vezes não é percebido pelo indivíduo.

Chegamos aqui a um ponto central da reflexão. Independentemente dos motivos que levaram o ego a formar uma estrutura de proteção em torno de si, esta sempre terá um papel limitador de crescimento aliado à proteção oferecida. Assim, a dicotomia aparente no inicio da reflexão não é de todo real; o orgulho sempre manifesta em conjunto seu lado positivo e seu lado negativo. Toda vez que somos tomados pelo orgulho uma parte frágil do nosso ego foi atingida, o que faz a necessidade da proteção ser reforçada.

Na segunda parte desta reflexão, veremos algumas pistas se como trabalhar o orgulho no processo de autodesenvolvimento.


Até lá.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Espiritualidade e meio ambiente (Parte II)


Este texto é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui Espiritualidade e Meio Ambiente (Parte I)

A cabeça pensa onde os pés pisam. Essa frase do Frei Beto sempre foi marcante para mim, e serve de base para esta reflexão. Se a relação da sociedade com o meio ambiente é a base de criação de todos os sistemas de crença, valores e códigos morais, o que podemos entender sobre sociedade e modo de vida atuais?

Na contemporaneidade, as questões ambientais têm foco privilegiado nas discussões governamentais, das empresas e do terceiro setor. No entanto, é comum que tragédias ambientais evitáveis continuem ocorrendo pelo mundo. O que isso revela sobre a relação de nossa sociedade com o meio ambiente?





Neste momento mais da metade da população mundial vive em ambientes urbanos. Esse movimento de urbanização da população tende a aumentar nos próximos anos. Como isso impacta as expressões espirituais?

Como já dito anteriormente, as cidades estão inseridas no meio ambiente, embora muitas vezes não sejam entendidas dessa forma. Devido ao alto grau de modificações antrópicas, necessárias para a produção do modo de vida atual, o ambiente urbano muitas vezes pode parecer um cenário inadequado para se pensar a relação sociedade-natureza-espiritualidade.

A concepção da supremacia humana sobre a natureza, resultado do processo histórico da sociedade contemporânea, possibilitou o surgimento de correntes de pensamento que se opõe a qualquer forma de defesa da melhoria das relações homem-natureza, vendo na preservação ambiental um empecilho ao desenvolvimento da sociedade. De fato, podemos perceber nos últimos tempos o surgimento de novas formas de espiritualidade que muitas vezes não se vêem como reflexo das relações homem-natureza.

Esta idéia, no entanto, não foi capaz de extinguir o anseio de muitos indivíduos e grupos que preservaram em suas expressões espirituais o entendimento de que a visão holística e integrativa é a chave do equilíbrio das sociedades humanas com a natureza. Constantemente vemos surgirem e ressurgirem movimentos espiritualistas que pretendem uma relação mais harmoniosa com a natureza. Muitas dessas expressões espiritualistas advogam por um retorno à formas religiosas e  místicas próprias da antiguidade.

É extremamente relevante que nos aprofundemos no entendimento da relação sociedade-natureza-espiritualidade, porém é necessário que este processo se dê de forma viável. Não é mais possível retornar a um estado no qual não havia o desenvolvimento científico tecnológico que temos hoje, nem retomar a visão da natureza dos povos primitivos. Da mesma forma, não é possível que continuamos a perpetuar o entendimento contemporâneo sobre estas questões. Precisamos ressignificar a relação da natureza com o sagrado, mas não podemos nos esquecer do processo que nos trouxe até aqui. Só assim podemos pensar em possíveis futuros.

Neste momento estamos presenciando uma grande crise civilizatória. O modo de vida moderno não mais é capaz de atender a todos os anseios da humanidade. Muito se especula sobre os rumos que a humanidade tomará daqui para frente, e muitas iniciativas tem se somado no sentido de pensar e planejar quais os próximos passos para que o desenvolvimento das sociedades humanas se dê de forma mais harmoniosa, inclusive com o meio ambiente.

A Carta da Terra, uma declaração internacional de valores e princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, nos apresenta pontos chaves para entendermos os desafios postos nesse momento ímpar de nossa história.

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. ... Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz.”

E o que todo este debate tem a ver com a espiritualidade? A dimensão transcendental da vida humana é alicerce para qualquer discussão que passe por pensar em projetos de futuro que permeiem todos os grupos e sociedades da terra.

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. … A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado”.

Mas em que a espiritualidade pode colaborar com esse debate? Ou ainda, é papel das instituições ligadas à espiritualidade se debruçar sobre a relação da humanidade com o meio ambiente?

A espiritualidade, em suas diversas formas, representa um direcionador da moral dos povos. A ideia de que fazemos parte de algo maior do que o que está aqui e agora tem um grande poder de influenciar a forma como as pessoas enxergam o futuro.

É nesse sentido que se faz necessária a intensificação dos debates sobre as questões ambientais pelas quais o mundo está passando. Se o meio ambiente é a fonte primária de inspiração para a espiritualidade humana, nada mais justa que esta história seja honrada com a reintegração com os ciclos naturais que permitiram a humanidade ampliar sua visão sobre si mesma.

Para finalizar, mais um trecho da Carta da Terra, que trata dos possíveis caminhos para o futuro a necessidade e de mudança civilizatória a nível global, na qual acredito que a espiritualidade pode ser a chave da mudança.

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”.

quarta-feira, 11 de março de 2020

O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte III)

Este texto é a terceira e última parte desta reflexão. A primeira e segunda partes podem ser acessadas aqui: O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte I) e aqui O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte II), respectivamente.




A elevação espiritual (e nenhuma outra benesse divina) deve ser encarada como recompensa ou barganha; o amor é a própria recompensa. Através do exercício do amor nos aproximamos de nossa essência e disso decorre, como consequência natural, nossa elevação a patamares mais altos de consciência. Não tomemos a parte pelo todo, nem os fins pelos meios.

O amor é, assim, o supremo objetivo da natureza divina e humana, visto que estas não são tão diferentes. Quando conseguimos atingir o patamar de amar pelo prazer de amar, conseguimos compreender que o amor é sua própria recompensa. E, quanto mais amor, mais combustível há para que a fagulha divina em nosso interior cresça cada vez mais, iluminando e aquecendo aspectos que se encontravam nas nossas sombras frias do desconhecido.

Dessa forma, o amor é também a base para nosso autoconhecimento. Ao iluminar nossas sombras, podemos, finalmente, nos observar em completude e entendermos qual é, afinal, nossa missão pessoal dada por Deus para que o sistema possa funcionar da melhor forma possível. Esse é o caminho para que o sistema funcione e a evolução espiritual da humanidade progrida, pois não há evolução sem autoconhecimento.

Não é possível que consigamos realizar nossa essência se não amarmos quem somos. Mas não podemos nos amar se não nos conhecemos. O autoconhecimento é a base de todas as doutrinas religiosas, místicas, filosóficas e iniciáticas que propõem a elevação espiritual.

Só conhecendo em profundidade quem somos em nossa essência, que se esconde sob todos os véus do ego, é que podemos nos considerar no caminho para a elevação espiritual. E esse caminho não é fácil, nem prazeroso, pois para conhecer o paraíso é necessário cruzar por todos os nossos infernos interiores, confrontando em cada um deles nossas próprias falhas e misérias.

O autoconhecimento é uma chave poderosa nesse caminho, mas não é suficiente. De que adianta eu me conhecer, saber minhas virtudes e vícios, minhas fraquezas e minhas fortalezas, se isto não puder, de fato, me levar para a elevação? De que adianta usar o conhecimento sobre mim mesmo para criar padrões cristalizados que me aprisionam na ilusão do ego?

Autoconhecimento só serve para a elevação espiritual, portanto para a realização da vontade divina, se for base para o auto aprimoramento. E este só é possível através do desenvolvimento de um intenso processo de aceitação e de amar a si mesmo, pois só aprimoramos o que nos interessa e nos cativa.

Se cada ser criado por Deus tem um caminho a ser trilhado para finalmente poder expressar sua missão divina, conhecer a si mesmo é importante para isso, mas amar a si mesmo é essencial. Amar incondicionalmente a si, por sua história, por suas falhas e limitações momentâneas. O amor é a coisa mais próxima na qual nos permitimos ser nós mesmos, sem julgamento, sem culpa, de 
forma a expressarmos plenamente nossa essência.

Entendendo a natureza da experiência humana na criação, sem os pesos dados por muitas doutrinas religiosa, pode facilitar o processo de auto aceitação e de amor próprio, pois tira de nossos ombros o peso da perfeição inalcançável que oprime nossas consciências.

Assim, não existe pecado nem punição divina para os desvios do caminho que eventualmente possamos cometer, pois tudo é experiencia adquirida. Se conseguirmos transformar a experiencia (qualquer que seja) em aprendizado, cumprimos a missão de Deus para nós. Ao tornar o que aprendemos como parte de nós, fazemos a ponte entre a teoria e prática, entre emocional e racional, e um novo nível de consciência se tornou vivo em nós.

Se na caminhada de elevação espiritual é preciso ter a chave íntima para o entendimento do sagrado, essa chave é o amor. Autoconhecimento, auto aprimoramento, amor próprio. Etapas necessárias para nos elevarmos espiritualmente. Dessa forma vai nascendo em cada um, o novo eu, cada vez mais livre, mais consciente, mais amoroso na arte de criar-se a si mesmo e a realidade a sua volta. Se você não puder amar, é impossível para você encontrar equilíbrio. Se você alcançar o equilíbrio, sua vida se tornará uma vida amorosa. E essa é a maior elevação que podemos desejar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O Ciclo das águas e as Yabás


No começo de tudo estava a terra, ainda em ebulição. O vapor de água saído dos vulcões em erupção se condensou na atmosfera e fez a chuva. Esta, caindo dos céus, ora se entranhava na terra, ora escorria por cima dela, até encontrar os locais onde pudesse se acalentar. Formaram-se os rios, as lagoas e, por fim, o mar. Estas águas, sob o calor do sol, se transformam novamente em vapor, subindo aos céus e reiniciando o ciclo.

Das águas brotaram a vida. Ela é a fonte de tudo o que vive na terra. Sem ela, só é possível a escassez. As Yabás, divinas Mães d'água, compartilham o mistério do sagrado feminino, cada uma em sua faceta.



Iansã

Força impulsionadora, expansiva, disciplinada ao mesmo tempo intempestiva
Senhora do Quarto Crescente, Iansã guarda os segredos da Menina e da Guerreira
Condutora das nuvens de chuva, é ela quem direciona o que receberá, ou não, emoção e sentimento
Dona dos raios, destrói tudo o que não é essencial, transmutando pelo fogo, para o novo renasça
Com sua tempestade, agita o que está parado, derruba o que não tem raízes, revela o que está oculto
Com sua espada e escudo em mãos, nos ensina a lutar por tudo o que acreditamos ser o certo
Iansã é a menina dos Olhos de Oxum, a quem tem como modelo e de quem não pode se separar por muito tempo.

Oxum

Força animadora, amorosa, delicada, vaidosa, ardilosa e caprichosa
Senhora da Lua Cheia, Oxum guarda os segredos da Jovem e da Amante
Conduz as águas dos rios para que possam matar a sede, abrasar o calor e regar as plantações,
Na cachoeira, suas águas até então recatadas, mostram sua força e beleza, se sobressaindo à terra
Dona dos metais e das pedras preciosas, mostra que a beleza da vida precisa ser apreciada
Com seu espelho apontado voltado para dentro, nos ensina a olhar pro mais profundo de nós e a amar tudo o que vemos nele refletido.
Oxum gesta tudo o que existe para que Iemanjá possa trazer ao mundo

Iemanjá

Força acolhedora, cuidadosa, receptiva, tranquilizadora, despojada de si e despretensiosa
Senhora do Quarto Minguante, Iemanjá guarda os segredos da Mulher e da Esposa
Nas praias, aguarda ansiosa para receber seus filhos que retornam para visitá-la
No mar, recebe as águas provenientes de todas as fontes, e as mescla, sem fazer distinção
Mãe de todos os peixes, a quem criou para que sua casa nunca esteja vazia e sempre tenha a quem cuidar
Com seu espelho apontado para para fora, nos ensina a olhar aos demais como realmente são e acolher tudo o que ali esteja refletido
Iemanjá acolhe os filhos de Nanã até que essa possa recebê-los novamente

Nanã

Força disciplinadora, paciente, restritiva, castradora, mantenedora e preservadora
Senhora da Lua Nova, Nanã guarda os segredos da Anciã e da Feiticeira
Nos pântanos decompõe o que já não tem mais vida, e disponibiliza os nutrientes para serem reaproveitados
Nos manguezais, acolhe a vida ainda frágil, que depois seguirá para o mar
Suas águas subterrâneas são os reservatórios que abastecem a terra na ausência de Chuva
Suas cavernas nos ensinam que com o tempo as águas podem perfurar até a mais dura rocha
Nanã, senhora da noite e da magia, é quem ensina Iansã a cobrir o sol para despejar suas águas na terra.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Umbanda e a identidade nacional

Tendo sua origem no sincretismo de diversos sistemas religiosos presentes em solo nacional (catolicismo, espiritismo, cultos de Nação e cultos indígenas) e, em grande medida, constituintes da identidade religiosa brasileira, a Umbanda acaba por representar em sua estrutura arquetípica as diversas faces do que é ser brasileiro.

Os primeiros arquétipos apresentados na Umbanda são representações de seus povos formadores (ameríndios, africanos e europeus), sendo que com o passar do tempo a matriz arquetípica se ampliou para comportar representações dos diversos grupos que compõe a brasilidade regional.



Cabe também um destaque para regiões com grande fluxo migratório, como o estado de São Paulo, onde todos estes matizes regionais se misturam. Afinal, onde mais o migrante nordestino faria sentido enquanto arquétipo (linha dos baianos) que o local para o qual destinou-se a migração?

Foram agregados ainda, uma gama de outros matizes místicos, filosóficos e religiosos estrangeiros (principalmente das tradições orientais) a medida que estes foram integrados ao contexto religioso nacional, dando à Umbanda uma característica marcante: a adaptabilidade sociocultural

Assim, a estrutura arquetípica encontrada nas umbandas do norte, é diferente daquela encontrada no sul. Mesmo entre as diferentes escolas umbandistas, também há variações, numa mesma região geográfica.

Precisamos entender como o imaginário popular concebe as representações arquetípicas para podermos entender porque os boiadeiros do sul são gaúchos pampeiros, enquanto no nordeste são sertanejos e no centro-oeste são os vaqueiros do pantanal, cada qual com seu conjunto de símbolos e modos de vida. Da mesma forma, os ribeirinhos da amazônia, os caiçaras do sudeste e os jangadeiros do nordeste representam diferentes formas de ser povo da água, ou simplesmente marinheiros.

Pra entender a Umbanda é necessário antes de tudo entender o Brasil, sua história, sua identidade, seus múltiplos universos. Mas não apenas os aspectos acadêmicos dessa discussão, mas o conhecimento profundo e cotidiano da brasilidade subjugada, pois o traço que une todos os arquétipos é a não centralidade na história oficial; povos periféricos, excluídos e que precisaram lutar para ter um lugar ao sol na história da nação.

Dessa forma, entendemos que lutar contra as desigualdades, se colocando a favor dos humildes e desamparados é um conceito chave para a Umbanda, presente desde sua fundação e bastante presente em sua estrutura de trabalho.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Espelhos d'água


Dentro do mar tem rio. Dentro de mim tem o quê?*

Na mitologia Iorubana, fonte que alimenta tanto a umbanda quanto o candomblé Ketu, o rio é domínio de Oxum e o mar é domínio de Iemanjá. Duas orixás ligadas aos mistérios aquáticos, à maternidade e também à vaidade. Ambas carregam seu precioso Abebê, o espelho com o qual refletem o que precisa ser mostrado. Cada qual a sua maneira.



Oxum carrega o espelho voltado para si, para que possa ver seu rosto. Contempla sua existência em toda sua complexidade, com seus defeitos e virtudes. Iemanjá carrega o espelho voltado para quem lhe olha, escondendo seu próprio rosto. Ela reflete o mais profundo da alma e entrega de volta ao olhar alheio.

Enquanto Oxum nos ensina a nos observar, nos conhecer e, por fim, nos amar, querendo bem tudo o que temos dentro de nós, Iemanjá nos ensina a observar, conhecer e amar aos demais e a acolher tudo aquilo que está além de nós.

Assim, como as águas dos rios seguem naturalmente em direção ao mar, o amor próprio nos auxilia, naturalmente, a amar os que estão ao nosso redor e a lhes auxiliar a ver o que tem de melhor em si mesmos.

Mas, se dentro do mar tem rio, em todo destino existe algo da jornada. Talvez um resquício do caminho percorrido, talvez indícios do novo caminho que se inicia. Talvez um e outro não sejam duas coisas distintas. Pois todo fim é também um recomeço.

Assim, a sagrada dança das água, em seu eterno ciclo, nos lembra que o precioso Abebê das Yabás reflete, sem julgamentos, o que se quer nele ver. As duas posições do espelho, hora apontando pra si, hora para os demais, são igualmente necessárias para compreender o todo. Cabe a cada um que acessa este mistério apontar o espelho para o que deseja enxergar naquele momento.
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*Trecho da canção "Beira-mar", composta por Roberto Mendes e Capinan