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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Reflexão sobre a Preguiça (Parte II)

 
Esta é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui:Reflexão sobre a Preguiça (Parte I)

A partir da reflexão anterior, chegamos ao ponto de que a preguiça é um fenômeno psíquico através do qual o impulso de ação é ativamente limitado ou repelido.

Partindo do pressuposto da eficiência da psique humana, nenhum fenômeno psíquico é criado sem que haja necessidade para tal, pois representaria um gasto desnecessário de um recurso finito e que tem um objetivo específico, nossa individuação. Se nossa psique cria um mecanismo que age ativamente para impedir a ação, deve haver alguma razão.

Retomando a reflexão anterior sobre orgulho (pode ser acessada clicando aqui Reflexão sobre o Orgulho (Parte I) e aqui Reflexão sobre o Orgulho (Parte II)), assumirei que a preguiça também funcione como um mecanismo de defesa psíquica. Mas não uma defesa do cansaço em si, pois isso seria natural e até benéfico, mas de um desgaste imaginado ou pressuposto que não necessariamente está calcado na percepção do real ou do agora, ou que está superestimado.

 


Analisando como a preguiça age em mim, percebo que as situações em que a preguiça mais me afeta são exatamente aquelas nas quais eu precisaria me expor mais do que eu gostaria. Não é, necessariamente, a ação em si que estou evitando, e sim o envolvimento intelectual ou emocional com aquela questão e, eventualmente, precisar revelar meus valores, ideias e minha visão de mundo, me colocando numa posição de vulnerabilidade diante do mundo.

Aprofundando ainda mais, as situações mais críticas são aquelas que desafiam habilidades que considero que não tenho ou que sei que estão mal desenvolvidas. A preguiça parece ser, dessa forma, meu escudo contra o confronto com meus limites.

Nesse sentido, a preguiça parece exercer em mim o papel da inércia na mecânica dos corpos, uma força que me faz permanecer no estado atual, de não movimento. Por analogia, imagino que em outras situações a força da preguiça me mantenha em movimento contínuo, de forma que não consiga, de fato, parar para refletir sobre o que estou fazendo. Essa segunda manifestação costuma acontecer em aspectos específicos da minha vida, principalmente relacionados à práticas e estudos espirituais.

Acredito ser possível entender, então, a preguiça como sendo o reflexo do desequilíbrio da disposição para refletir, reavaliar e, caso necessário, modificar padrões, ideias e sentimentos. Neste sentido, acaba sendo uma peça chave nos processos de auto aprimoramento.

Se, como resultado lógico da reflexão posta, temos que a preguiça é uma força relacionada com nosso contato com nossos limites, uma espécie de guardiã dos nossos limiares, das bordas de nós mesmos, acredito que esta seja uma chave importante para como trabalhar essa energia.

Cruzar o limiar parece tentador, possibilita o contato com o desconhecido, com o que está além do véu, ao mesmo tempo que abre caminho para que nos percamos na multiplicidade de possibilidades (caos absoluto). Se há uma sentinela que protege essa passagem, precisamos aprender a lidar com ela, negociar nossas passagens, sempre precavidos contra as adversidades que possamos encontrar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Reflexão sobre a Preguiça (Parte I)

Quando ouço a palavra preguiça, a primeira imagem mental que me vem (além do fofíssimo bicho-preguiça, claro) é a de estagnação, falta de movimento, um estado de espírito no qual não há ímpeto de ação. 


Buscando na memória, a preguiça evoca diversos momentos nos quais essa não-ação é enxergada como algo inerentemente natural, prazeroso e sadio (“uma tarde preguiçosa de chuva”, “uma rede preguiçosa pra deitar” etc). No entanto as considerações negativas sobre a preguiça são muito mais abundantes, sendo que diversas palavras que estão em seu campo semântico são utilizadas como xingamento, como vagabundo, vadio etc.

Partindo disso, me surgem duas perspectivas para seguir com a reflexão. Na primeira a preguiça se originaria da ausência de movimento, de forma passiva, quando não há estímulo suficiente. Na segunda a origem é a aversão (e não a simples ausência) de movimento, sendo que neste caso a preguiça adquire um caráter ativo, pois mesmo diante da possibilidade de ação, há uma força intrínseca que a anula.

Como ponto de partida, partirei do entendimento da preguiça como sinônimo de não-ação. Também irei considerar que essa tipificação da preguiça como ativa e passiva, baseada na aversão ou na simples ausência de ação, seja relevante.

A não-ação faz parte dos fenômenos naturais observáveis, sendo de vital importância para os processos naturais. São momentos interciclos, nos quais as condições para reinício estão sendo gestadas. Tomo a liberdade de citar as palavras de Mauro Iasi, em seu poema Aula de Voo, quando diz que “para o voo é preciso tanto o casulo como a asa”. Assim são os momentos que podemos ver no inverno, na lua nova, nas entre-safras etc. 

Considerando que a humanidade, assim como toda a criação divina, foi feita à imagem e semelhança de Deus, podemos partir da análise que os ciclos naturais refletem a natureza divina e, de forma análoga, também dos seres humanos. Se a natureza tem seus ciclos de ação e não-ação, desta forma, podemos entender que com a humanidade também acontece o mesmo. 


Porém, é importante levar em conta que estes momentos de não-ação são, via de regra, menores que os de ação e que o mesmo deve ser verdade para os seres humanos. Os momentos de descanso precisam ser menores do que os momentos de trabalho.

Além disso, é vital que lembremos que não-ação absoluta é impossível. Sempre estamos em algum tipo de movimento, mesmo que seja um movimento ativo e consciente de conservação de energia ou defesa contra possíveis ameaças.

Desta forma, me parece insuficiente a associação da preguiça com os momentos de não-ação, uma vez que, sendo um conceito típico da natureza psíquica humana, não pode ser ligado aos fenômenos naturais de forma tão automática. Em outras palavras, a não-ação é natural e saudável, mas a preguiça não o é necessariamente, visto que não são da mesma natureza.

O que define, então, a preguiça? Qual sua natureza última? E, principalmente, o que faz com que seja considerada por muitas tradições espiritualistas e religiosas como um defeito capital?

Retomarei aqui a divisão inicial entre a preguiça passiva e ativa, com base na ausência ou na aversão à ação. Se a ausência de ação é natural e faz parte integrante dos ciclos naturais, sendo, como já visto, de outra natureza em relação à preguiça, a associação entre essas duas coisas não me parece, de fato, válida. Assim, a ideia de preguiça está intrinsecamente ligada à sua forma ativa (na verdade sua única forma), na qual o fator definidor é a aversão ou recusa à ação e ao trabalho.

Acredito ter chegado num ponto importante da reflexão, porém essa ideia ainda não explica como a preguiça se origina, como age na psique humana e, o mais importante, como combatê-la.

Na continuação desta reflexão, tentarei desenvolver estas ideias. Até lá.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Reflexão sobre a Mente, a Realidade e a Liberdade (Parte I)

Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem. 
Rosa Luxemburgo


Ao longo da jornada da humanidade, desde que os seres humanos se percebem como seres conscientes, diversas foram as tentativas de explicação sobre a natureza humana, sobre o mundo ao seu redor e sobre o pós-vida. Mais tarde, estas questões deram luz à outras ondas de questionamentos, como sobre o funcionamento da mente humana, sobre o que é ou não real, se há forças externas que controlam a vida humana, entre muitas outras. 

Partindo de diferentes perspectivas, a religião, a magia, a filosofia e a ciência buscaram responder estas e outras questões, chegando a respostas aparentemente discrepantes que deram luz à modos de pensar divergentes, o que não contribui para alcançarmos o que poderia se caracterizar como a resposta definitiva. 

A religião tem por fundamento fazer a reconexão da humanidade com a grande força criadora do universo, que chamarei aqui de Deus, transmitindo seus ensinamentos às massas através de dogmas, ritos e crenças uniformes.

A magia pretende despertar no homem suas potências divinas, para que este seja capaz de modificar sua realidade por meio de sua vontade, o que exige conhecimento amplo nas diversas áreas de conhecimento disponíveis, capacidade de adaptar e estes conhecimentos para novas formas e um não-apego a paradigmas limitantes.

A filosofia se baseia no desenvolvimento humano através da capacidade crítica, analítica e racional, baseando-se nos estudos teóricos sobre a natureza humana e na relação dos homens com os elementos externos (desde outros homens até uma figura como Deus).

A ciência visa a construção de conhecimentos amplamente verificáveis, reproduzíveis, fazendo uso do método científico para validação de dados e elaboração de conhecimentos mais complexos.


Mesmo estes diferentes caminhos já expressaram entendimentos diferentes em épocas distintas. Essa adaptação é natural, pois a realidade é dinâmica, assim como a percepção humana sobre si mesma e sobre o mundo. A ciência adquire novos conhecimentos, a religião se adéqua aos novos membros, a magia se reinventa e a filosofia aprofunda cada vez mais suas questões fundamentais; essas mudanças são causa e efeito das mudanças sociais; as sociedades humanas adquirem novas formas de funcionamento.

Cada um desses caminhos, ou outros que possam existir, se volta para uma parte específica da análise da realidade (interna e externa do homem), sobre a qual consegue se aprofundar e estabelecer um caminho para que seus adeptos possam trilhar de forma segura.

Em todos os casos, me parece que há uma ideia inata, porém nem sempre explícita, de conferir aos homens ferramentas para que se tornem capazes de tomar decisões sobre sua vida. Me parece, ainda, que o objetivo final seja o de atingir a liberdade para conduzir sua própria vida. Esse será o ponto central que conduzirá esta reflexão.

Nossa liberdade é diretamente proporcional à nossa capacidade de tomar decisões conscientes sobre nossas ações. Para isso, é preciso que saibamos as leis e forças (físicas, jurídicas, culturais etc.) que nos regem e que implicam nas possíveis consequências de nossas ações. 

Desta forma, seja através de dogmas, paradigmas, teorias, crenças ou tabus, cada um dos caminhos de desenvolvimento humano nos ensina a tomar decisões e poder agir livremente, pelo menos dentro do padrão de liberdade enxergado como ideal.

Só podemos escolher entre as opções viáveis, no tempo e no espaço, daquilo que nos é dado à escolher. Também é verdade que só podemos verdadeiramente escolher quando compreendemos todas as variáveis envolvidas, incluindo nossa própria vontade.

Nossas escolhas, fator principal da liberdade, são dependentes da forma como entendemos o mundo e esta, por sua vez, é dependente das ideias, emoções, instintos e animações que povoam nossa mente.

Pensamentos não estão isentos de valores, eles carregam mensagens importantes sobre como percebemos o mundo, e se configuram como hipóteses, ou seja, uma das possíveis interpretações da realidade, não a verdade absoluta. 

Nossa mente não percebe a realidade em si, mas sim como os acontecimentos nos afetam. A percepção da realidade é filtrada, primeiro pelos receptores físicos, depois por nossa bagagem cognitiva de cunho intelectual e por último por nosso conjunto de memórias, traumas, crenças e valores. Estes filtros de realidade influenciam a forma como percebemos o ambiente ao nosso redor, os acontecimentos em nossa vida e, por fim, a nós mesmos.

Os filtros de realidade não são, inicialmente, construídos por nós. Eles são frutos de nossas experiências desde a mais tenra idade e, caso não haja intervenção, dominarão nossa mente e nossa realidade até o fim de nossas vidas.

Dessa forma, para alterar nossa visão de mundo, alterando nossa capacidade de realizar escolhas conscientes e, por fim, alcançar nossa liberdade, precisamos antes modificar nossos filtros de realidade. Este trabalho não acontece de uma hora para outra, precisando ser feito de modo contínuo, responsável e respeitando nosso próprio ritmo. 

Como só percebemos o que conhecemos, não somos capazes de perceber coisas muito distantes de nossa compreensão. Dessa forma, a expansão deve começar a partir de conteúdos mais próximos à nossa realidade, porém que já possam apresentar pontos de inflexão e ruptura de valores cristalizados. Depois estaremos aptos a absorver conteúdos cada vez mais distantes de nós.

Porém não podemos modificar o que não conhecemos. Os mecanismos de percepção da realidade são, em grande parte, inconscientes, sendo necessário um processo de aprofundamento em nossa própria mente para começarmos a identificá-los. Por isso é mais fácil, inicialmente, mapear nossas emoções e atitudes espontâneas do que o pensamento em si. A partir daí, podemos fazer o caminho inverso, até sermos capazes de chegar aos filtros mais profundos. 

A chave para entendermos nossos filtros mais aparentes está na observação da repetição de emoções e atitudes. Em que situações sou dominado pela raiva, ou pela tristeza, ou pela alegria? O que estas situações têm em comum. o que desperta estas emoções em mim?

Reconhecer os pensamentos e ideias que se repetem é pré-requisito para termos a capacidade de controlar e eliminar aqueles que não nos pertencem e que atrapalham nosso processo de conquistar a autonomia sobre nós mesmos.

Na próxima parte tentarei trazer alguns ensinamentos trazidos pela Tradição Hermética que podem nos ajudar a entender melhor esse processo.

Até lá

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Reflexão sobre o Orgulho (Parte II)

Esta é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui: Reflexões sobre o Orgulho - Parte I

De acordo com tudo o que foi exposto até aqui, esta reflexão aponta no sentido de entender o orgulho como uma couraça que, independente de como e porque foi formada e de quais benefícios (momentâneos) trouxe, ao longo do processo de desenvolvimento humano ele se torna um obstáculo que nos impede de evoluir e expressar quem realmente somos.

Assim, podemos entender que o orgulho sempre traz consigo uma fator limitador no processo de desenvolvimento psíquico. Partindo do pressuposto que a intenção de todo ser humano seja evoluir através da expansão de nossa consciência, o orgulho precisa ser tratado necessariamente como objeto de intervenção.





Se a existência desta proteção emocional se deve a vulnerabilidade e fragilidade do que se encontra em seu interior, no caso o ego, não seria mais propício almejar seu fortalecimento, de forma a não mais precisar desta proteção?


Neste caso o processo de autoconhecimento e autoaprimoramento deve trabalhar para tornar o ego menos frágil, a ponto de que este possa coordenar nosso processo de tomada de consciência sem ou com menos necessidade de proteção.

Desta forma, mais do que simplesmente desejar destruir o orgulho, no processo de auto-desenvolvimento precisamos trabalhamos para que a proteção oferecida pelo orgulho não seja mais necessária, uma vez que nosso ego não esteja fragilizado. Assim, uma vez que o ego esteja apto a rumar em direção à individuação e alinhamento com o Self (totalidade da estrutura psíquica), podemos focar nos demais desafios apresentados no nosso processo de elevação espiritual. 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Reflexões do contemporâneo: a Fábula dos Porcos Assados

O cenário atual se apresenta como um momento crucial para repensarmos o modo como encaramos a realidade que nos cerca.

É possíveis construirmos novas formas de enxergar o mundo, novos modelos educacionais, novas formas de relacionamentos humanos? Ou será que o mundo sempre foi, é e será imutável?

Para provocar está reflexão, recomendo a leitura da fábula dos porcos assados. Pretendo retomar está discussão em breve, de forma mais pessoal. Mas por enquanto, deixo aqui a fábula completa para leitura.
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Certa vez ocorreu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, que até então só comiam a carne crua, experimentaram a carne assada e acharam que era deliciosa. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque. O tempo passou, e o sistema de assar porcos continuou basicamente o mesmo.


Mas as coisas nem sempre funcionavam bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas, podiam ser atribuídas ou à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam, ou à inconstante natureza do fogo, difícil de controlar, ou às árvores excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade de chuva, ou... 

Como era um procedimento montado em grande escala, isso preocupava muito a todos, porque, se o sistema falhava, as perdas ocasionadas eram igualmente grandes. Milhões de pessoas alimentavam-se só de carne assada e também muitos eram os que tinham ocupação nessa tarefa. Portanto, o sistema simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, à medida que se fazia em maiores escalas, mais parecia falhar e maiores perdas parecia causar. 
Já era um clamor geral a necessidade de se reformar profundamente o sistema. Para isso, todos os anos, realizavam-se congressos, seminários e conferências para achar a solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo, porque no ano seguinte repetiam-se os congressos, os seminários e as conferências. E assim sempre. 
As causas eram difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: havia maquinário diversificado e profissionais de diversos ramos de conhecimento. Havia indivíduos dedicados a acender – os incendiadores. Havia incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos, diurnos, especialistas para cada estação.  Havia especialistas em ventos – os anemotécnicos. Havia um diretor-geral de Assamento, um diretor de Técnicas Ígneas, um Administrador Geral de Florestas Incendiáveis, e uma Comissão Nacional de Treinamento em Porcologia.
Eram milhares de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estudando a importação de melhores árvores, além de pesquisar idéias operativas, por exemplo, como fazer buracos para que neles caíssem os porcos. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno. Poucos especialistas estavam de acordo entre si e cada um tinha investigações e dados para provar suas afirmações. 
Um dia, um incendiador chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era fácil de ser resolvido – bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.
Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor-geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e disse-lhe: 
“Tudo o que o senhor propõe está correto, mas não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? E com os acendedores de diversas especialidades? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo?”
“Não sei”, disse João, encabulado.
“O senhor percebe agora que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que, se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo? Que autores falam isso? Que autoridade há para avaliar sua sugestão? ”
João continuava ouvindo, em silêncio.
“O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas? O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros de bosques já preparados? 
“Não sei, senhor.”
“Bem, o simples fato de possuir valiosos e extraordinários engenheiros em Porcopirotecnia indica que o sistema é bom. E o que fazer com nossos engenheiros em Porcopirotecnia? ”
“Não sei”.
“Viu? O senhor tem é que trazer solução para certos problemas: como treinar melhores anemotécnicos, como conseguir acendedores do Oeste mais rápidos, como fazer estábulos de oito maiores. Tem que melhorar o que temos e não mudá-lo. É disso que o país necessita. Ao senhor falta sensatez!
“Realmente, estou perplexo!”, falou João. 
“Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia – isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo.”
João Bom-Senso, coitado, não falou mais um “a”. Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu. Por isso é que até hoje se diz, quando há uma tentativa de melhorar um sistema, faz falta o Bom-Senso.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Reflexão sobre o Orgulho (Parte I)

Antes de iniciar a reflexão proposta, dois sentidos paradoxais sobre este tema me vieram a cabeça: em sentido negativo, orgulho como uma falha de caráter na qual algumas características dos indivíduos são demasiadamente exaltadas, sendo encarado como um pecado; e em sentido positivo, orgulho como sinônimo de resistência identitária, na qual características que sempre foram usadas para oprimir e reprimir grupos minoritários são ressignificadas e usadas para empoderamento dos membros destes grupos, sendo encarado neste caso como uma virtude.

Qual desses dois sentidos seria o verdadeiro? Seria possível definir o orgulho como sendo essencialmente bom ou essencialmente mal? Este me pareceu ser o primeiro aspecto para ser considerado nesta reflexão.

Como ponto de partida, observando como o Orgulho age em minha própria vida, tive a percepção que ele constitui uma armadura emocional, e como tal, sua função seria proteger algo que está em seu interior dos perigos (reais ou imaginários) oriundos do lado externo. Deste modo, e extrapolando minha própria experiência, o orgulho serviria para evitar o sofrimento emocional e sua origem seria a necessidade de segurança e estabilidade emocional.





Enxergar o orgulho como uma armadura apresenta um aspecto importante para esta reflexão: a ideia de que há algo de frágil que faz necessária a existência de uma estrutura de proteção emocional. Mas o que estaria sendo protegido pelo orgulho? O que de vulnerável está guardado em seu interior?

Uma primeira resposta seria que o orgulho está protegendo nossa essência, ou nosso Self, portanto a totalidade de nossa psiquê, e neste caso, ele teria uma função nobre e justa, pois, se nosso Self estiver fragilizado, dificilmente conseguiremos expressar e vivenciar quem realmente somos. Mas isso significaria reconhecer tanto que a essência humana é intrinsecamente frágil e vulnerável, quanto que o orgulho seria maior que nossa essência, a ponto de envolvê-la para lhe oferecer proteção. Nenhum dos pontos levantados me parecem verdadeiros.

Poderia ser, então, o ego que está sendo protegido? O ego pode ser entendido como o representante do nosso Self num nível inferior e também como o mediador da nossa consciência, o guardião daquilo que escolhemos conhecer e ignorar. Desta forma, me parece ser mais propício que ele, ao contrário do Self, necessite de proteções.

Seguindo este linha de raciocínio, o orgulho serviria para proteger nosso ego em seu processo de mediação da consciência, o que, de certa forma, também pode se visto como um aspecto auspicioso.

Mas essa ideia apresenta outro ponto a se considerado. Muitas vezes nos prendemos dentro de casa, cercados por cercas, alarmes e câmaras, em nome de uma falsa sensação de segurança, sem nos darmos conta que estamos nos deixando levar pelo pavor e deixando de viver as potencialidades que a vida “do lado de fora” pode nos proporcionar. Viver assombrado pelo medo, de forma que fiquemos enclausurados e constantemente apreensivos, não é nem de perto o que significa sentir-se seguro.

O orgulho, neste perspectiva, embora ofereça um certo grau de segurança emocional para nosso ego, também funciona como um fator de aprisionamento ou de limitação de movimento. Nosso ego, neste caso, terá dificuldades de realizar seu movimento de rumar em direção à sua potencialidade máxima (alinhamento com o Self), pois há uma barreira que impede este movimento de expansão.

Da mesma forma que sentimos a necessidade de protegermos nossas posses (casas, carros etc) motivados pela percepção de insegurança em nossa realidade, nosso ego cria proteções emocionais baseados na sensação de insegurança vivenciadas por nossa psiquê. Essa insegurança pode ter razões muitas vezes inconscientes, e o processo de formação e embrutecimento do orgulho, assim como de outras defesas psíquicas, muitas vezes não é percebido pelo indivíduo.

Chegamos aqui a um ponto central da reflexão. Independentemente dos motivos que levaram o ego a formar uma estrutura de proteção em torno de si, esta sempre terá um papel limitador de crescimento aliado à proteção oferecida. Assim, a dicotomia aparente no inicio da reflexão não é de todo real; o orgulho sempre manifesta em conjunto seu lado positivo e seu lado negativo. Toda vez que somos tomados pelo orgulho uma parte frágil do nosso ego foi atingida, o que faz a necessidade da proteção ser reforçada.

Na segunda parte desta reflexão, veremos algumas pistas se como trabalhar o orgulho no processo de autodesenvolvimento.


Até lá.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Espiritualidade e meio ambiente (Parte II)


Este texto é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui Espiritualidade e Meio Ambiente (Parte I)

A cabeça pensa onde os pés pisam. Essa frase do Frei Beto sempre foi marcante para mim, e serve de base para esta reflexão. Se a relação da sociedade com o meio ambiente é a base de criação de todos os sistemas de crença, valores e códigos morais, o que podemos entender sobre sociedade e modo de vida atuais?

Na contemporaneidade, as questões ambientais têm foco privilegiado nas discussões governamentais, das empresas e do terceiro setor. No entanto, é comum que tragédias ambientais evitáveis continuem ocorrendo pelo mundo. O que isso revela sobre a relação de nossa sociedade com o meio ambiente?





Neste momento mais da metade da população mundial vive em ambientes urbanos. Esse movimento de urbanização da população tende a aumentar nos próximos anos. Como isso impacta as expressões espirituais?

Como já dito anteriormente, as cidades estão inseridas no meio ambiente, embora muitas vezes não sejam entendidas dessa forma. Devido ao alto grau de modificações antrópicas, necessárias para a produção do modo de vida atual, o ambiente urbano muitas vezes pode parecer um cenário inadequado para se pensar a relação sociedade-natureza-espiritualidade.

A concepção da supremacia humana sobre a natureza, resultado do processo histórico da sociedade contemporânea, possibilitou o surgimento de correntes de pensamento que se opõe a qualquer forma de defesa da melhoria das relações homem-natureza, vendo na preservação ambiental um empecilho ao desenvolvimento da sociedade. De fato, podemos perceber nos últimos tempos o surgimento de novas formas de espiritualidade que muitas vezes não se vêem como reflexo das relações homem-natureza.

Esta idéia, no entanto, não foi capaz de extinguir o anseio de muitos indivíduos e grupos que preservaram em suas expressões espirituais o entendimento de que a visão holística e integrativa é a chave do equilíbrio das sociedades humanas com a natureza. Constantemente vemos surgirem e ressurgirem movimentos espiritualistas que pretendem uma relação mais harmoniosa com a natureza. Muitas dessas expressões espiritualistas advogam por um retorno à formas religiosas e  místicas próprias da antiguidade.

É extremamente relevante que nos aprofundemos no entendimento da relação sociedade-natureza-espiritualidade, porém é necessário que este processo se dê de forma viável. Não é mais possível retornar a um estado no qual não havia o desenvolvimento científico tecnológico que temos hoje, nem retomar a visão da natureza dos povos primitivos. Da mesma forma, não é possível que continuamos a perpetuar o entendimento contemporâneo sobre estas questões. Precisamos ressignificar a relação da natureza com o sagrado, mas não podemos nos esquecer do processo que nos trouxe até aqui. Só assim podemos pensar em possíveis futuros.

Neste momento estamos presenciando uma grande crise civilizatória. O modo de vida moderno não mais é capaz de atender a todos os anseios da humanidade. Muito se especula sobre os rumos que a humanidade tomará daqui para frente, e muitas iniciativas tem se somado no sentido de pensar e planejar quais os próximos passos para que o desenvolvimento das sociedades humanas se dê de forma mais harmoniosa, inclusive com o meio ambiente.

A Carta da Terra, uma declaração internacional de valores e princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, nos apresenta pontos chaves para entendermos os desafios postos nesse momento ímpar de nossa história.

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. ... Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz.”

E o que todo este debate tem a ver com a espiritualidade? A dimensão transcendental da vida humana é alicerce para qualquer discussão que passe por pensar em projetos de futuro que permeiem todos os grupos e sociedades da terra.

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. … A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado”.

Mas em que a espiritualidade pode colaborar com esse debate? Ou ainda, é papel das instituições ligadas à espiritualidade se debruçar sobre a relação da humanidade com o meio ambiente?

A espiritualidade, em suas diversas formas, representa um direcionador da moral dos povos. A ideia de que fazemos parte de algo maior do que o que está aqui e agora tem um grande poder de influenciar a forma como as pessoas enxergam o futuro.

É nesse sentido que se faz necessária a intensificação dos debates sobre as questões ambientais pelas quais o mundo está passando. Se o meio ambiente é a fonte primária de inspiração para a espiritualidade humana, nada mais justa que esta história seja honrada com a reintegração com os ciclos naturais que permitiram a humanidade ampliar sua visão sobre si mesma.

Para finalizar, mais um trecho da Carta da Terra, que trata dos possíveis caminhos para o futuro a necessidade e de mudança civilizatória a nível global, na qual acredito que a espiritualidade pode ser a chave da mudança.

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O Ciclo das águas e as Yabás


No começo de tudo estava a terra, ainda em ebulição. O vapor de água saído dos vulcões em erupção se condensou na atmosfera e fez a chuva. Esta, caindo dos céus, ora se entranhava na terra, ora escorria por cima dela, até encontrar os locais onde pudesse se acalentar. Formaram-se os rios, as lagoas e, por fim, o mar. Estas águas, sob o calor do sol, se transformam novamente em vapor, subindo aos céus e reiniciando o ciclo.

Das águas brotaram a vida. Ela é a fonte de tudo o que vive na terra. Sem ela, só é possível a escassez. As Yabás, divinas Mães d'água, compartilham o mistério do sagrado feminino, cada uma em sua faceta.



Iansã

Força impulsionadora, expansiva, disciplinada ao mesmo tempo intempestiva
Senhora do Quarto Crescente, Iansã guarda os segredos da Menina e da Guerreira
Condutora das nuvens de chuva, é ela quem direciona o que receberá, ou não, emoção e sentimento
Dona dos raios, destrói tudo o que não é essencial, transmutando pelo fogo, para o novo renasça
Com sua tempestade, agita o que está parado, derruba o que não tem raízes, revela o que está oculto
Com sua espada e escudo em mãos, nos ensina a lutar por tudo o que acreditamos ser o certo
Iansã é a menina dos Olhos de Oxum, a quem tem como modelo e de quem não pode se separar por muito tempo.

Oxum

Força animadora, amorosa, delicada, vaidosa, ardilosa e caprichosa
Senhora da Lua Cheia, Oxum guarda os segredos da Jovem e da Amante
Conduz as águas dos rios para que possam matar a sede, abrasar o calor e regar as plantações,
Na cachoeira, suas águas até então recatadas, mostram sua força e beleza, se sobressaindo à terra
Dona dos metais e das pedras preciosas, mostra que a beleza da vida precisa ser apreciada
Com seu espelho apontado voltado para dentro, nos ensina a olhar pro mais profundo de nós e a amar tudo o que vemos nele refletido.
Oxum gesta tudo o que existe para que Iemanjá possa trazer ao mundo

Iemanjá

Força acolhedora, cuidadosa, receptiva, tranquilizadora, despojada de si e despretensiosa
Senhora do Quarto Minguante, Iemanjá guarda os segredos da Mulher e da Esposa
Nas praias, aguarda ansiosa para receber seus filhos que retornam para visitá-la
No mar, recebe as águas provenientes de todas as fontes, e as mescla, sem fazer distinção
Mãe de todos os peixes, a quem criou para que sua casa nunca esteja vazia e sempre tenha a quem cuidar
Com seu espelho apontado para para fora, nos ensina a olhar aos demais como realmente são e acolher tudo o que ali esteja refletido
Iemanjá acolhe os filhos de Nanã até que essa possa recebê-los novamente

Nanã

Força disciplinadora, paciente, restritiva, castradora, mantenedora e preservadora
Senhora da Lua Nova, Nanã guarda os segredos da Anciã e da Feiticeira
Nos pântanos decompõe o que já não tem mais vida, e disponibiliza os nutrientes para serem reaproveitados
Nos manguezais, acolhe a vida ainda frágil, que depois seguirá para o mar
Suas águas subterrâneas são os reservatórios que abastecem a terra na ausência de Chuva
Suas cavernas nos ensinam que com o tempo as águas podem perfurar até a mais dura rocha
Nanã, senhora da noite e da magia, é quem ensina Iansã a cobrir o sol para despejar suas águas na terra.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Espelhos d'água


Dentro do mar tem rio. Dentro de mim tem o quê?*

Na mitologia Iorubana, fonte que alimenta tanto a umbanda quanto o candomblé Ketu, o rio é domínio de Oxum e o mar é domínio de Iemanjá. Duas orixás ligadas aos mistérios aquáticos, à maternidade e também à vaidade. Ambas carregam seu precioso Abebê, o espelho com o qual refletem o que precisa ser mostrado. Cada qual a sua maneira.



Oxum carrega o espelho voltado para si, para que possa ver seu rosto. Contempla sua existência em toda sua complexidade, com seus defeitos e virtudes. Iemanjá carrega o espelho voltado para quem lhe olha, escondendo seu próprio rosto. Ela reflete o mais profundo da alma e entrega de volta ao olhar alheio.

Enquanto Oxum nos ensina a nos observar, nos conhecer e, por fim, nos amar, querendo bem tudo o que temos dentro de nós, Iemanjá nos ensina a observar, conhecer e amar aos demais e a acolher tudo aquilo que está além de nós.

Assim, como as águas dos rios seguem naturalmente em direção ao mar, o amor próprio nos auxilia, naturalmente, a amar os que estão ao nosso redor e a lhes auxiliar a ver o que tem de melhor em si mesmos.

Mas, se dentro do mar tem rio, em todo destino existe algo da jornada. Talvez um resquício do caminho percorrido, talvez indícios do novo caminho que se inicia. Talvez um e outro não sejam duas coisas distintas. Pois todo fim é também um recomeço.

Assim, a sagrada dança das água, em seu eterno ciclo, nos lembra que o precioso Abebê das Yabás reflete, sem julgamentos, o que se quer nele ver. As duas posições do espelho, hora apontando pra si, hora para os demais, são igualmente necessárias para compreender o todo. Cabe a cada um que acessa este mistério apontar o espelho para o que deseja enxergar naquele momento.
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*Trecho da canção "Beira-mar", composta por Roberto Mendes e Capinan

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Espiritualidade e Meio Ambiente (Parte I)

A proposta desta reflexão é apresentar alguns aspectos básicos na compreensão de como a espiritualidade e o meio ambiente se entrelaçam nas relações humanas e assim fomentar o debate. 

Quando pensamos na relação entre espiritualidade e meio ambiente muitas vezes tendemos a correlacionar atividades de cunho espiritualista com paisagens consideradas agradáveis. Uma ideia bastante comum é imaginar uma cena de meditação em um parque ou um belo jardim. Indo um pouco mais a fundo, pode vir à mente os rituais xamânicos realizados pelos povos indígenas em meio à floresta. Mas, quando pensamos em expressões espirituais, místicas e religiosas praticadas no meio urbano como ficam estas questões? 

Meio ambiente não é o que está fora 

Podemos entender o meio ambiente como o conjunto de condições, leis, influencias e interações de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas¹. É um sistema formado por elementos naturais e artificiais relacionados entre si e que existem num determinado local e momento. 

Mas pra além das definições técnicas, se faz necessária uma compreensão mais integrativa. É preciso entender primeiramente que o ser humano e todas as suas criações não estão separados do meio ambiente e que este compreende cada indivíduo, cada grupo, cada sociedade, cada país e assim por diante. O meio ambiente abrange tudo o que nos cerca e todas as relações que estabelecemos. 

Para aprofundar nossa visão sobre o tema, me parece sensato evocar o conceito de Ecologia Profunda, proposto pelo filósofo e ecologista norueguês Arne Næss, que argumenta que o meio ambiente se caracteriza pelo equilíbrio sutil de inter-relações complexas em que a existência de um organismo depende da existência de outros dentro dos ecossistemas. O princípio central da ecologia profunda é a crença de que o ambiente como um todo deve ser respeitado e considerado como tendo certos direitos inalienáveis de viver e florescer. 

Essa perspectiva de enxergar as relações ambientais defende que a natureza possui um valor intrínseco, independente de seu valor de uso pelo ser humano, prezando pela harmonia das sociedades humanas com o meio ambiente e pela igualdade entre as espécies. Neste sentido ao mesmo tempo que propõe que as relação homem-natureza se deem de forma ética, se contrapõe-se a visão de que o ser humano detém o domínio da natureza e que ela é apenas um recurso para satisfação de suas necessidades. 


Relação homem-ambiente e a cultura 

É a partir da relação e interação homem-ambiente que se estabeleceram os modos de vida das populações humanas antigas, o que significa dizer que todos os sistemas de crenças, valores e leis considerados primitivos refletiam com exatidão a relação que aquela sociedade desenvolvia com o meio ao seu redor, ou ainda que as religiões e filosofias da antiguidade não tinham outro foco senão harmonizar o homem com a natureza e a sociedade com o cosmos. O sucesso de uma sociedade estava estritamente ligado a harmonia dessa relação homem-natureza, pois saber utilizar os recursos naturais disponíveis da melhor forma era vital para a sobrevivência do grupo. A falha ao se adaptar ao seu meio foi a causa da destruição de diversas sociedades antigas. 

A humanidade da antiguidade aprendeu a observar, comparar, compreender e experimentar a natureza ao seu redor e, por analogia, aprendeu a fazer o mesmo seus próprios processos psíquicos e sociais. Os ensinamentos herméticos² nos explicam este processo através da “Lei da Correspondência”, que nos ensina que “o que está encima é como o que está embaixo, e o que está fora é como o que está dentro”. 


A natureza e o Sagrado 

O meio ambiente teve (e continua tendo) um papel significativo na construção de todos os sistemas de crenças e de práticas espirituais, das mais antigas às mais modernas. Desde as primeiras interpretações sobre o sagrado, marcadas pelo animismo e panteísmo nas populações consideradas primitivas, até os modernos sistemas de compreensão da transcendência do mundo moderno, nas quais tanto a ciência quanto a magia buscam explicações racionais e verificáveis para os fatos, é impossível afirmar que estas construções não passam pela percepção ambiental de seus praticantes. 

Com a modificação da relação da humanidade com o meio-ambiente se ao longo do tempo, a relação entre espiritualidade e meio-ambiente também se alterou. Da dependência passiva das forças naturais ao desenvolvimento de tecnologias que nos permitissem alterar o meio ambiente ao nosso bel-prazer (não sem consequências), podemos perceber que a humanidade se encontra cada vez menos conectada com os ciclos naturais do planeta. 

Um passo bastante significativo nessa mudança de relação do sagrado com o meio ambiente foi a consolidação da moral-judaico cristã, principalmente através da igreja católica, como grande orientadora do comportamento da sociedade ocidental. Diversos elementos presentes nesta forma de interpretar o mundo marcaram o pensamento ambiental da sociedade, principalmente no campo espiritual, entre eles a perseguição às crenças pagãs, em geral mais alicerçadas na relação com a natureza. 

O próprio berço das culturas e religiões abraâmicas se caracterizava na antiguidade como um ambiente inóspito, que exigia que qualquer grupo humano que ali se estabelecia desenvolvesse um código moral igualmente restritivo, a fim de garantir a sobrevivência do grupo. Assim, a cultura daquelas sociedades se estabeleceu na perspectiva de dominação sobre as adversidades ambientais e, por consequência, da psique e do comportamento humanos. Não faria nenhum sentido que neste ambiente se desenvolvesse uma cultura tão integrada à constante disponibilização de recursos naturais, portanto pouco restritiva, como a dos indígenas brasileiros, por exemplo. Nesse contexto a noção de natureza exuberante estaria ligada ao Paraíso, de onde o homem foi expulso por sua transgressão a Deus (o que justifica a condenação a um ambiente inóspito como espiação dos pecados) e recompensa pela boa conduta em vida. 


Somando a este processo a consolidação do processo de produção capitalista, a setorialização mais intensa da sociedade, e a mudança da maioria da população para ambientes urbanos, o contato com a natureza foi se tornando menos presente na vida humana.

De certa forma, esse afastamento da sociedade com o meio ambiente nas sociedades mais recentes, também impactou em novas formas de espiritualidades que muitas vezes não se veem mais como reflexo das relações homem-natureza.

Na próxima parte desta reflexão pretendo trazer alguns apontamentos de resgate da relação da espiritualidade com o meio ambiente.

Até lá
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1. Definição dada pela Resolução CONAMA 306/2002. 

2. O Hermetismo será abordado futuramente com mais profundidade. De forma resumida, podemos entender o Hermetismo como um conjunto de doutrinas simultaneamente filosóficas e místicas, proveniente do antigo Egito e atribuído a Hermes Trismegisto. Através do estudo e da prática da filosofia oculta e da magia pretende possibilitar a seus estudantes a evolução e expansão da consciência humana, penetrando assim nos mais profundos mistérios da consciência divina e da criação.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte I)

O amor é um tema invariavelmente abordado nas diversas tentativas dos grupos humanos de entender a realidade a sua volta e na construção de sistemas de crenças (teogonias e cosmogonias) resultantes desse processo. Da mesma forma, o amor é peça chave na construção dos modos de vida coerentes com estas diferentes visões de mundo. 

Seja nas inúmeras doutrinas filosóficas, religiosas, místicas ou iniciáticas, parece haver um consenso sobre a importância (se não centralidade) do amor para os diferentes caminhos propostos por estas diferentes doutrinas para a elevação espiritual, para a saída da vida comum em direção a algo maior. 

Por que o amor tem um papel tão importante para a superação do estado de dormência da alma, de inércia inconsciente, através do despertar da consciência? Por que tanto se fala, se discute, se racionaliza e se teoriza sobre este sentimento? 

Entender plenamente o amor e ser capaz de vivenciá-lo, incondicionalmente, é um grande desafio para a humanidade; talvez o maior desafio que enfrentamos, enquanto espíritos encarnados que vivenciam a manifestação divina, afim de despertarmos nosso próprio Deus interior. 

Por que o amor é tão desafiador? Qual o grande mistério envolto numa palavra tão pequena? Por que tanta complicação em uma ideia aparentemente tão simplória? 

A primeira constatação que precisamos fazer sobre o amor é que ele é, por sua natureza, aparentemente antagônico. É extremamente simples, ao mesmo tempo em que é extremamente complexo: simples, porque quando há amor, tudo é possível, não existe problema que faça frente a ele; complexo, porque ele exige maturidade, desprendimento, entendimento profundo e fé. O amor é, de fato, um dos fenômenos mais profundos sobre a terra. 

A depender do ponto de vista, o amor pode ser, ao mesmo tempo, causa e feito das experiências humanas: é necessário algo anterior para que o amor possa se manifestar plenamente, resultando em harmonia, mas ele também é nossa primeira animação, uma vez que é através dele que viemos ao mundo. 

Por sua natureza antagônica, irracional e impulsiva, o amor parece ser especialmente difícil de compreender a partir de uma mente racionalista, restritiva e calculista, que pretende ter controle sobre nossas vontades, sentimentos, pensamentos e ações, submetendo-os à análise criteriosa da objetividade. 

Acredito que seja importante fazer aqui um recorte, localizando geográfica e culturalmente esta reflexão, para entendermos que falar de amor em nosso contexto cultural é, invariavelmente, falar de um ponto de vista analítico ocidental, marcado pelo olhar científico, capaz de traduzir em padrões aceitáveis para a razão toda experiencia humana, inclusive as consideradas místicas e transcendentais. Desta forma, é sob este prisma que esta reflexão se desenvolve. Se tomássemos como ponto de partida uma concepção mais intuitiva e contemplativa, talvez este desenrolar reflexivo se desse de outra forma. 

Como nos ensina OSHO, em sua obra Tantra: Espiritualidade e Sexo, “em realidade, o amor é o ato mais absurdo — sem significado ou propósito além dele próprio. Ele existe em si mesmo, e não para qualquer outra coisa... O amor é o fim em si mesmo”. 

Se há alguma coisa que escapa verdadeiramente à razão, esta coisa é o amor. Por isso, para compreendê-lo, nosso lado racional precisa ser sujeitado pelo nosso emocional, mas não anulado, pois é o equilíbrio entre racional e emocional que nos abrirá as portas do entendimento. 

Primeiro é necessário sentir verdadeiramente, para depois conseguirmos racionalizar objetivamente. Só depois de vivenciados estes dois processos é possível aproximá-los, cada vez mais, para que com o tempo se tornem um só. Pensar com o coração e sentir com a mente, ser capaz de fazer a síntese entre emocional e racional. Ou talvez, simplesmente perceber que essa separação não seja tão real quanto imaginamos. 

O amor pode ser, dessa forma, a ponte que liga uma coisa à outra, que reconecta os opostos, que possibilita a tradução de todas as linguagens. Sendo assim, é através do amor que nos elevamos a um novo nível de consciência, no qual nossos opostos internos começam a se reconciliar e, por consequência, a manifestar coisas novas em nossa realidade. A energia do amor é a energia de síntese e criação. 

Se entendemos Deus como grande força geradora de tudo, do manifesto e do imanifesto, do que foi, é e será, podemos entender que o amor é a força que permite que toda a criação divina aconteça, pois é a própria força motriz do criação divina, a própria essência do movimento do sistema divino. Nada pode ser criado no universo que não seja pelo amor. Como consequência disso, entendemos que o amor é a chave para o entendimento de todos os fenômenos que se manifestam no mundo. 

Se o amor é, então, a ferramenta usada por Deus para animar sua criação, seria possível para a humanidade entender a Deus sem antes entender o amor? É possível que nos aproximemos de Deus, sem nos aproximarmos de sua força animadora? Existe um modelo de espiritualidade possível que não seja amorosa em sua essência? Se entendemos o amor como a fonte da inspiração anímica da criação divina, ou seja, como o filtro por onde a emanação divina ganha sentido para existir, como poderia uma vida sem amor permitir uma espiritualidade sadia? 

Na continuação desta reflexão, tentarei apresentar algumas possíveis respostas para estes questionamentos. 

Até lá.

sábado, 18 de janeiro de 2020

O caminho do autoconhecimento

Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar*.

Ao iniciarmos nosso processo de autoconhecimento é muito tentador buscar algum tipo de Guru que nos apresente o melhor caminho a seguir, aquele que apresenta menos obstáculos e que pode ser trilhado no menor tempo possível. Afinal, no ritmo frenético da sociedade atual, quem tem tempo pra dedicar a se autoconhecer, não é verdade? Um método de autoconhecimento instantâneo parece ser a pedida ideal. Se puder ser “delivery”, melhor ainda. Nada que demande muito tempo nem esforço.

Infelizmente (ou talvez não) na prática isso não é possível. Qualquer método apresentado como fácil e rápido dever ser visto com reticência, especialmente se prometer resultados milagrosos. Isso também não quer dizer que o processo de autoconhecimento precise ser demasiadamente doloroso, lento e cheio de dificuldades para funcionar. Mudar o pêndulo para a outra extremidade também não é a solução.

Qual é, então, o melhor caminho para o autoconhecimento? Resumindo em poucas palavras, ele simplesmente não existe. Pelo menos não a nível universal, pois isso implicaria ignorar que todas as individualidades e idiossincrasias dos diferentes grupos e sujeitos. É impossível estabelecer uma fórmula universal que abarque todas a diversidade humana com igual eficiência.

Para se estabelecer o melhor caminho, duas coisas são essenciais: saber onde se está (qual é o ponto de partida?) e onde se deseja chegar (qual é o ponto de destino?). Só assim, a partir da análise do território no qual estes dois pontos se encontram, é possível estabelecer, primeiramente, os vários possíveis caminhos (porque há mais de um – e todos os caminhos levam à Roma!) e qual deles é o melhor, pelo menos para aquele momento. Para aprofundar nesse entendimento, vale lembrar os conceitos budistas de Kharma e Dharma (Link para um vídeo do canal “Textos para Reflexão, de Rafael Arrais sobre o tema: https://www.youtube.com/watch?v=PH5z-X6L34Y).

O caminho do autoconhecimento é invariavelmente pessoal, pois precisa respeitar a história, gostos, saberes e valores do indivíduo. Para alguns o caminho será mais solitário, para outros mais coletivo; poderá ser mais prático ou mais reflexivo, dentre inúmeras outras possibilidades. Por isso, antes de iniciar o trajeto é bom analisar os possíveis primeiros passos, sem se esquecer que o trajeto pode ser mudado a qualquer momento.

Possíveis caminhos

Algumas vias de autoconhecimento nos são apresentadas pelas ciências humanas, um corpus de conhecimentos construídos através da coleta, análise e interpretação de fatos, coletivos e individuais, ao longo da história da humanidade e vistos pelo olhar da academia e dos métodos racionalistas do paradigma científico. Podemos citar a Filosofia e a Psicologia como as duas áreas de conhecimentos das ciências humanas como aquelas que dialogam mais diretamente com a busca do autoconhecimento, embora de certa forma todas podem dar sua contribuição no processo.

A Filosofia sempre se preocupou com a natureza humana, seus defeitos e virtudes, além de abordar modos de vida adequados às concepções filosóficas sobre a felicidade. Um dos exemplos mais emblemáticos foi Epicuro e seus ensinamento sobre o bem viver. Ao se compreender o que está sendo proposto por cada sistema filosófico é possível reinterpretar nossa própria perspectiva de vida, nos permitindo vivenciar outras formas de encarar o mundo.

A Psicologia, ao estudar o comportamento e os processos mentais dos indivíduos, possui algumas abordagens mais focadas na parte clínica (avaliação e tratamento das psicopatologias), outras mais focadas na parte terapêutica (compreensão e resolução de problemas em diferentes camadas do comportamento humano, incluindo questões de cunho mais existencial) e ainda abordagens que mesclam as duas perspectivas. Para fins de autoconhecimento é importante conhecer um pouco sobre as diferentes abordagens e verificar qual mais se adéqua às necessidades de cada indivíduo.

Outra possibilidade são as vias de autoconhecimento que trafegam pelo entendimento metafísico da existência humana, se apresentando como caminhos que envolvem uma visão mais transcendental e mística da existência humana, em geral menos focadas nos entendimentos unicamente racionalistas.

Um dos caminhos mais adotados nesta perspectiva é a Religião. Para grande parte da população esta é a porta de entrada para qualquer experiência metafísica. De fato, a via religiosa se adéqua aos anseios de muitos pessoas, que buscam no entendimento e interiorização das doutrinas uma forma de satisfazer suas necessidades de transcendência. Por outro lado, o caráter massificado dos ensinamentos e a imposição de dogmas se apresentam como fatores limitadores para muitas outras.

Outro caminho possível é o estudo e prática do Ocultismo, que nada tem de relação com as práticas malignas do imaginário popular. Aqui, quando dizemos oculto estamos falando daquilo que não é visível a “olho nu”, um conjunto de conhecimentos que não está disponível para toda a população, pelo menos a princípio. Nesse caminho é comum que se trilhe com outras pessoas, principalmente pessoas mais experientes que possam auxiliar na caminhada.

É nesse contexto em que se inserem as Ordens Iniciáticas. Entendemos por iniciação o processo de entrada num sistema de compreensão do mundo diferente da vida ordinária, para o qual é necessário um processo de morte e renascimento simbólicos. Dentro das ordens há uma jornada previamente estabelecida na qual os membros passarão por estudos, vivencias e rituais que lhe apresentarão, aos poucos, uma nova forma de ver a si mesmos e o mundo ao seu redor.

A escolha do caminho

Com tantos caminhos disponíveis, por onde começar?

Primeiramente é bom lembrar que, como exposto acima, não existe caminho ideal. Qualquer que seja a via escolhida, seja alguma das expressas aqui, sejam outras (e há muitas outras), todas apresentarão desafios e muitas vezes farão o indivíduo ter vontade de desistir. A persistência é peça chave para o autoconhecimento.

O mais importante é ter em mente que todo caminho necessita de um ponto de partida e de um chegada, mas a jornada entre eles pode ser modificada quantas vezes se fizer necessário. Mas, independente do caminho escolhido, é importante que haja entrega, que se viva aquela experiencia em sua plenitude.

*Este pequeno trecho do poema Cantares, do poeta espanhol Antonio Machado, ilustra com delicadeza e precisão o ponto central desta reflexão. Segue versão completa do poema, com tradução de Maria Teresa Almeida Pina.

Cantares (Antonio Machado)

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar
Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão
Gosto de ver-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…
Nunca persegui a glória
Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar
Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…
Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar”…
Golpe a golpe, verso a verso…
Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”
Golpe a golpe, verso a verso.