segunda-feira, 18 de maio de 2020

Os Orixás na Umbanda (Parte II)

Este texto é a continuação do texto que pode ser acessado clicando aqui: Os Orixás na Umbanda (Parte I)

Após a introdução sobre os Orixás na Umbanda, seguem breves descrições sobre os Oborós (Orixás masculinos) mais comumente cultuados na Umbanda. As informações apresentadas podem variar conforme as diferentes doutrinas.

OXALÁ
Considerado o mais importante dos Orixás dentro do culto da Umbanda. Representa a Fé, Espiritualidade, Paciência, Paz, Ordem e Harmonia. Oxalá é alheio a toda a violência, disputas, brigas, gosta de ordem, da limpeza, da pureza

Representa o arquétipo Crístico, sendo o grande exemplo a ser seguido por todos os umbandistas. Por conta disso, muitas casas de Umbanda não reconhecem que Oxalá possa ter filhos, pois todos na Umbanda já seriam filhos dele.

As histórias que relatam a criação do mundo retratam a figura de Oxalá, que foi o Orixá incumbido por Olodumare para descer do mundo espiritual (orun) para criar o mundo físico (aiyê) e os homens.   



Cor: branco leitoso ou cristal (translúcido)
Sincretismo: Jesus Cristo
Símbolos: opáxoró (bastão de prata), pomba, pemba (giz) branca
Elementos: ar (atmosfera e céu)
Pontos de força: mirantes, alto de montanhas, chapadas
Domínios: poder procriador masculino, criação, mundo espiritual
Ervas: boldo, anis-estrelado, folha da costa, rosa branca
Saudação: Epa Babá! / Auê Babá! / Xeu Epá Babá! 

EXÚ
Figura mais controversa do panteão dos Orixás, Exú é o mensageiro entre os homens e os deuses. O mais humano dos Orixás é, erroneamente, associado ao diabo cristão; na realidade Exú contém em si todas as contradições e conflitos inerentes ao ser humano. Não é totalmente bom nem totalmente mau; assim como o homem é capaz de amar e odiar, unir e separar, promover a paz e a guerra.

Representa os arquétipos do mensageiro e do provocador (trickster), simbolizando nossas lutas internas. Guarda as entradas (portais) de todos os lugares, assim como as encruzilhadas, principalmente as de terra. É o primeiro a ser reverenciado, pois sem ele não é possível acessar o sagrado. 

Assim como Oxalá, muitas casas não consagram filhos a Exú, pois ele representaria lutas universais da humanidade que seriam mais coletivas que pessoais. Muitas casas também não apresentam culto direto a este Orixá.




Cores: preto e vermelho.
Sincretismo: Santo Antônio
Símbolos: falo (pênis) ereto, tridente, encruzilhada, figa
Elementos: terra e fogo.
Pontos de força: encruzilhada (principalmente de terra), mercados e feiras
Domínios: comunicação, sexo, magia, comércio, subversão das regras injustas.
Ervas: alho, cebola, pimenta, mamona
Saudação: Laroye! / Mojubá!

XAPANÃ
Orixá da saúde e das doenças é também o senhor da terra. Seu nome é carregado de medo e mistério, sendo geralmente denominado por suas duas polaridades energéticas: Obaluayê (expansivo) e Omulu (restritivo). Tem domínio sobre o ciclo de vida, morte e da ressurreição, regendo, desta forma, a evolução encarnatória dos seres

Representa os arquétipos de ancião e de curandeiro. Sua energia é extremamente telúrica, lenta e pesada. Hospitais, necrotérios e outros locais ligados à vida e morte estão sobre sua regência. É também um dos regentes da calunga pequena (cemitério).

Faz parte dos Orixás de origem no Daomé, sendo anterior aos Orixás Yorubanos. Seu culto é anterior à idade do ferro, razão pela qual algumas tradições não utilizam este metal nos trabalhos dedicados a ele.




Cores: amarelo e preto / branco, vermelho e preto / roxo.
Sincretismo: São Lázaro / São Roque
Elemento: terra
Pontos de força: cemitério, praia, beira de poço
Domínios: doenças epidêmicas, saúde, vida e morte, evolução
Símbolo: xaxará, azé (manto de palha) e cruz
Ervas: quaresmeira, canela de velho, manjericão roxo, gengibre
Saudação: Atotô! / Omulu iê!

OGUM
Orixá do ferro e senhor da guerra. Ogum é o principal representante da energia marciana na Umbanda. É ele quem abre os caminhos dos filhos em momentos de dificuldade. 

Representa os arquétipos do ferreiro e do guerreiro. Ogum foi o primeiro a dominar a metalurgia, que ensinou aos homens, possibilitando-lhes melhorias tecnológicas que modificaram por completo o modo de vida da humanidade. Por esse motivo é o senhor da tecnologia e da inovação.

A energia de Ogum é a energia do movimento, da expansão, do avanço e do progresso. Por esse motivo tem dificuldade em lidar com as tradições e práticas ancestrais.




Cores: vermelho / azul escuro / verde escuro
Sincretismo: São Jorge / Santo Antônio
Elemento: ar e fogo
Pontos de força: estradas, estradas de ferro, minas de metais
Domínios: guerra, caminhos, conquista, tecnologia, metalurgia, agricultura
Símbolo: espada, lança, bigorna e outras ferramentas feitas de metal.
Ervas: espada de São Jorge, peregum verde, abre-caminho, aroeira branca,  
Saudação: Ogunhê! / Patacori!

XANGÔ
Orixá do fogo e do trovão, Xangô é o senhor da  justiça e do equilíbrio. Rege sobre as montanhas e pedreiras, locais que a energia de concretização e cristalização se fazem visíveis.

Seus arquétipos são do juiz e do rei justo e provedor, aquele que garante a subsistência do grupo. A justiça de Xangô não é cega, pois é de ordem divina, nem é vingativa, agindo de forma imparcial. Xangô entrega a cada um conforme seu merecimento.

Como sua energia está associada a firmeza, a concretização, ao não deixar-se levar pela opinião alheia. Quando desequilibrada, provoca teimosia, inflexibilidade e arrogância.



Cores: marrom / vermelho / vermelho e branco
Sincretismo: São Jerônimo / São João Batista / São Pedro
Elemento: fogo e terra (rochas)
Pontos de força: pedreiras
Domínios: justiça, equilíbrio, diplomacia, poder estatal, questões jurídicas 
Símbolo: machado duplo, machado de pedra, coroa,
Ervas: aroeira, arruda, picão-preto, pimenteira, romanzeiro, 
Saudação: Kaô Kabecilê!

OXÓSSI
Orixá da caça e senhor das matas, rege o contato com as plantas e animais e todas as atividades humanas relacionadas. As florestas, que são parte de seu domínio, estão relacionadas com aspectos sombrios da alma e com os espíritos de antepassados. Dessa forma, Oxóssi estimula nossa capacidade de apreender com as experiências dos demais e com a história, como forma de nos auto lapidar. 

Seu arquétipo é o do caçador, sendo conhecido como o “caçador de uma flecha só”. Sua grande perícia na arte da caça se deve ao grande conhecimento que possui sobre a dinâmica da floresta e seus habitantes, bem como ao domínio sobre si mesmo, pois a caça exige austeridade e entrega.

Sua energia é rápida e dinâmica, mas extremamente focada e disciplinada. Por reger uma atividade solitária e que precisa ser feita em silêncio, tem dificuldade no contato social e pode tender ao instinto de isolamento social.




Cores: verde claro / azul turquesa
Sincretismo: São Sebastião / São Jorge
Elemento: terra (vegetação)
Pontos de força: florestas e clareiras
Domínios: caça, fartura, conhecimento, sabedoria, agricultura 
Símbolo: arco e flecha, iruquerê (abanador feito da cauda de cavalo)
Ervas: samambaia, alecrim, cipó de caboclo, todas as frutíferas
Saudação: Oké Aro! / Arolé! 

Na terceira e última parte do texto, serão trazidas descrições sobre as Yabás (Orixás femininos).

Até lá.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Salve os Pretos Velhos!

"Vou seguindo entre os espinhos,
 sem sequer me arranhar. 
Pois meu velho abre caminho
 ou me leva pelo ar."¹


Conhecidos como os vovôs e vovós da Umbanda, os pretos velhos são a representação da sabedoria ancestral, da fé, da esperança, da humildade, e da paciência. 


Representam os negros e mestiços de origem africana que, apesar da condição de escravizados, conseguiram chegaram à idade avançada. Também representam os idosos das comunidades quilombolas, nas quais se tentou recriar,  na medida do possível, uma sociedade com os valores tradicionais de suas sociedades de origem na África². 





Seu arquétipo traz uma dualidade desconcertante e provocadora, pois ao mesmo tempo que nos relembra as mazelas sofridos na situação de escravizados, nos revelam a força da fé inabalável na justiça e providência divinas. Mesmo no cativeiro se mantiveram senhores de seu mundo interior.  


Os pretos velhos nos ensinam a trabalhar nossas dores e a dominar nosso coração para seguir adiante na jornada da vida. São símbolos da empatia, da fé inabalável na natureza bondosa da alma humana, e do amor incondicional pela criação divina.


"Eu chorei, sofri as duras dores da humilhação.
Mas ganhei, pois eu trazia Nanã ê no coração"³


Com sua simplicidade e afetuosidade conseguem transmitir mensagens de profundo conhecimento da condição humana.


Esta a linha é regida por pelos Orixás Nanã e Xapanã, divindades com culto muito antigo e ligadas aos mistérios mais profundos da natureza humana, incluindo o ciclo de vida, morte e renascimento. Por esta razão, nos auxiliam em nossa evolução espiritual, nos conduzindo para encontrar nossos aspectos mais divinos.


Que possamos nos aproximar da força dos pretos velhos e ser imantados por sua aura de paz, sabedoria, bondade e firmeza de caráter.


Adorê as Almas!
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1. Trecho da canção "Velhos de Coroa" de Sérgio Pererê.

2. Importante lembrar que os africanos trazidos para o Brasil são provenientes de diversos povos e nações, muitos inclusive adversários entre si, que tiveram suas identidades socioculturais suprimidas e suas diferenças apagadas. A rica diversidade de saberes foi reduzido para uma categoria homogeneizada caracterizada unicamente pela cor de pele.   

3. Trecho da canção "Cordeiro de Nanã", original mas gravada pelo grupo Os Tincoãs.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Os Orixás na Umbanda (Parte I)

termo Orixá, em Yorubá, significa “dono da cabeça”. Eles representam uma classe de divindades que podem representar figuras históricas divinizadas por sua grandeza em vida¹ ou as forças da natureza personificadas. Podem ser interpretados ainda como manifestações das qualidades divinas individualizadas, facilitando seu entendimento para nosso nível de consciência atual.




Seu culto é frequente na Umbanda², no Candomblé Ketu³ e outras religiosidades mais regionalizadas, como o Batuque no sul do Brasil. Porém, é importante destacar que os Orixás não são os seres primordiais⁴ do universo. Existe um Deus supremo chamado na tradição Yorubana de Olorum ou Olodumare que representa o Todo. Os orixás seriam, então, intermediários entre a humanidade e o grande Deus Criador. 

Na Umbanda a visão dos Orixás como representações das forças da natureza é a mais comum. Associa-se, também a cada um deles arquétipos da psique humana, que acredita-se influenciar a personalidades de seus filhos. Cada orixá possui ainda  seu sistema simbólico particular, composto de cores, comidas, ervas, oferendas e pontos de força na natureza, entre outros elementos. Como resultado do sincretismo que se deu durante o período da escravatura, cada Orixá foi também associado a um ou mais santos católicos.

Ser filho de um determinado Orixá significa que aquela energia e aquele arquétipo terão mais influência em sua vida que os demais Orixás, embora todos tenhamos a influência de todos eles em nossa vida. Isso não deve ser visto, no entanto, como determinístico da personalidade dos filhos de cada Orixá. Estamos falando de tendências e predisposições arquetípicas e energéticas sobre as quais cada ser encarnado tem poder de decisão, exercendo seu livre arbítrio.

O número de orixás que cada pessoa carrega, a ordem de importância entre eles e a forma de conhecê-los varia muito de cada tradição de Umbanda. No entanto, em quase todas as casa é indispensável que se conheça pelo menos o Orixá mais atuante, para se realizar os procedimentos de fortalecimento do vínculo entre o filho e o Orixá, afim de se facilitar e potencializar o trabalho mediúnico.  

Nas próximas partes trarei breves descrições sobre os Orixás mais comumente cultuados na Umbanda.

Até lá.
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1 Esse processo guarda suas similaridades com a Canonização na igreja católica, o Tombo/Encantaria na Jurema/Catimbó e com as próprias entidades da Umbanda.

2 Quase todas as tradições de Umbanda utilizam o panteão Yorubano para seu culto, por conta do contato com o Candomblé Ketu. Porém, algumas casas utilizam-se dos panteões de outras nações africanas.

3    O Candomblé é o resultado da reelaboração de diversas culturas africanas. É uma religião de matriz africana recriada no Brasil, portanto, uma religião afro-brasileira. Existem três tradições religiosas que se utilizam do nome Candomblé no Brasil. O Candomblé Ketu, de origem Nagô tem como divindades os Orixás e como língua sagrada o idioma Yorubá; o Candomblé Angola, de origem Bantu, tem como divindades os Inkises e como língua sagrada os idiomas bantos; e o Candomblé Jeje, de origem Daomeana, tem como divindades os Voduns e como língua sagrada o idioma Fon.

4    Não serão abordados aqui os Orixás Primordiais (Funfun), pois estes não tem culto individualizado na Umbanda. Todos foram reunidos em Oxalá e divididos em várias qualidades das suas duas configurações principais, Oxalufã (idoso) e Oxaguiã (jovem). 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Reflexão sobre o Orgulho (Parte II)

Esta é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui: Reflexões sobre o Orgulho - Parte I

De acordo com tudo o que foi exposto até aqui, esta reflexão aponta no sentido de entender o orgulho como uma couraça que, independente de como e porque foi formada e de quais benefícios (momentâneos) trouxe, ao longo do processo de desenvolvimento humano ele se torna um obstáculo que nos impede de evoluir e expressar quem realmente somos.

Assim, podemos entender que o orgulho sempre traz consigo uma fator limitador no processo de desenvolvimento psíquico. Partindo do pressuposto que a intenção de todo ser humano seja evoluir através da expansão de nossa consciência, o orgulho precisa ser tratado necessariamente como objeto de intervenção.





Se a existência desta proteção emocional se deve a vulnerabilidade e fragilidade do que se encontra em seu interior, no caso o ego, não seria mais propício almejar seu fortalecimento, de forma a não mais precisar desta proteção?


Neste caso o processo de autoconhecimento e autoaprimoramento deve trabalhar para tornar o ego menos frágil, a ponto de que este possa coordenar nosso processo de tomada de consciência sem ou com menos necessidade de proteção.

Desta forma, mais do que simplesmente desejar destruir o orgulho, no processo de auto-desenvolvimento precisamos trabalhamos para que a proteção oferecida pelo orgulho não seja mais necessária, uma vez que nosso ego não esteja fragilizado. Assim, uma vez que o ego esteja apto a rumar em direção à individuação e alinhamento com o Self (totalidade da estrutura psíquica), podemos focar nos demais desafios apresentados no nosso processo de elevação espiritual. 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Reflexões do contemporâneo: a Fábula dos Porcos Assados

O cenário atual se apresenta como um momento crucial para repensarmos o modo como encaramos a realidade que nos cerca.

É possíveis construirmos novas formas de enxergar o mundo, novos modelos educacionais, novas formas de relacionamentos humanos? Ou será que o mundo sempre foi, é e será imutável?

Para provocar está reflexão, recomendo a leitura da fábula dos porcos assados. Pretendo retomar está discussão em breve, de forma mais pessoal. Mas por enquanto, deixo aqui a fábula completa para leitura.
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Certa vez ocorreu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, que até então só comiam a carne crua, experimentaram a carne assada e acharam que era deliciosa. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque. O tempo passou, e o sistema de assar porcos continuou basicamente o mesmo.


Mas as coisas nem sempre funcionavam bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas, podiam ser atribuídas ou à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam, ou à inconstante natureza do fogo, difícil de controlar, ou às árvores excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas que não acertava o lugar, o momento e a quantidade de chuva, ou... 

Como era um procedimento montado em grande escala, isso preocupava muito a todos, porque, se o sistema falhava, as perdas ocasionadas eram igualmente grandes. Milhões de pessoas alimentavam-se só de carne assada e também muitos eram os que tinham ocupação nessa tarefa. Portanto, o sistema simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, à medida que se fazia em maiores escalas, mais parecia falhar e maiores perdas parecia causar. 
Já era um clamor geral a necessidade de se reformar profundamente o sistema. Para isso, todos os anos, realizavam-se congressos, seminários e conferências para achar a solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo, porque no ano seguinte repetiam-se os congressos, os seminários e as conferências. E assim sempre. 
As causas eram difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: havia maquinário diversificado e profissionais de diversos ramos de conhecimento. Havia indivíduos dedicados a acender – os incendiadores. Havia incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos, diurnos, especialistas para cada estação.  Havia especialistas em ventos – os anemotécnicos. Havia um diretor-geral de Assamento, um diretor de Técnicas Ígneas, um Administrador Geral de Florestas Incendiáveis, e uma Comissão Nacional de Treinamento em Porcologia.
Eram milhares de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estudando a importação de melhores árvores, além de pesquisar idéias operativas, por exemplo, como fazer buracos para que neles caíssem os porcos. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno. Poucos especialistas estavam de acordo entre si e cada um tinha investigações e dados para provar suas afirmações. 
Um dia, um incendiador chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era fácil de ser resolvido – bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.
Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor-geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e disse-lhe: 
“Tudo o que o senhor propõe está correto, mas não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? E com os acendedores de diversas especialidades? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo?”
“Não sei”, disse João, encabulado.
“O senhor percebe agora que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que, se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo? Que autores falam isso? Que autoridade há para avaliar sua sugestão? ”
João continuava ouvindo, em silêncio.
“O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas? O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros de bosques já preparados? 
“Não sei, senhor.”
“Bem, o simples fato de possuir valiosos e extraordinários engenheiros em Porcopirotecnia indica que o sistema é bom. E o que fazer com nossos engenheiros em Porcopirotecnia? ”
“Não sei”.
“Viu? O senhor tem é que trazer solução para certos problemas: como treinar melhores anemotécnicos, como conseguir acendedores do Oeste mais rápidos, como fazer estábulos de oito maiores. Tem que melhorar o que temos e não mudá-lo. É disso que o país necessita. Ao senhor falta sensatez!
“Realmente, estou perplexo!”, falou João. 
“Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia – isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo.”
João Bom-Senso, coitado, não falou mais um “a”. Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu. Por isso é que até hoje se diz, quando há uma tentativa de melhorar um sistema, faz falta o Bom-Senso.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Reflexão sobre o Orgulho (Parte I)

Antes de iniciar a reflexão proposta, dois sentidos paradoxais sobre este tema me vieram a cabeça: em sentido negativo, orgulho como uma falha de caráter na qual algumas características dos indivíduos são demasiadamente exaltadas, sendo encarado como um pecado; e em sentido positivo, orgulho como sinônimo de resistência identitária, na qual características que sempre foram usadas para oprimir e reprimir grupos minoritários são ressignificadas e usadas para empoderamento dos membros destes grupos, sendo encarado neste caso como uma virtude.

Qual desses dois sentidos seria o verdadeiro? Seria possível definir o orgulho como sendo essencialmente bom ou essencialmente mal? Este me pareceu ser o primeiro aspecto para ser considerado nesta reflexão.

Como ponto de partida, observando como o Orgulho age em minha própria vida, tive a percepção que ele constitui uma armadura emocional, e como tal, sua função seria proteger algo que está em seu interior dos perigos (reais ou imaginários) oriundos do lado externo. Deste modo, e extrapolando minha própria experiência, o orgulho serviria para evitar o sofrimento emocional e sua origem seria a necessidade de segurança e estabilidade emocional.





Enxergar o orgulho como uma armadura apresenta um aspecto importante para esta reflexão: a ideia de que há algo de frágil que faz necessária a existência de uma estrutura de proteção emocional. Mas o que estaria sendo protegido pelo orgulho? O que de vulnerável está guardado em seu interior?

Uma primeira resposta seria que o orgulho está protegendo nossa essência, ou nosso Self, portanto a totalidade de nossa psiquê, e neste caso, ele teria uma função nobre e justa, pois, se nosso Self estiver fragilizado, dificilmente conseguiremos expressar e vivenciar quem realmente somos. Mas isso significaria reconhecer tanto que a essência humana é intrinsecamente frágil e vulnerável, quanto que o orgulho seria maior que nossa essência, a ponto de envolvê-la para lhe oferecer proteção. Nenhum dos pontos levantados me parecem verdadeiros.

Poderia ser, então, o ego que está sendo protegido? O ego pode ser entendido como o representante do nosso Self num nível inferior e também como o mediador da nossa consciência, o guardião daquilo que escolhemos conhecer e ignorar. Desta forma, me parece ser mais propício que ele, ao contrário do Self, necessite de proteções.

Seguindo este linha de raciocínio, o orgulho serviria para proteger nosso ego em seu processo de mediação da consciência, o que, de certa forma, também pode se visto como um aspecto auspicioso.

Mas essa ideia apresenta outro ponto a se considerado. Muitas vezes nos prendemos dentro de casa, cercados por cercas, alarmes e câmaras, em nome de uma falsa sensação de segurança, sem nos darmos conta que estamos nos deixando levar pelo pavor e deixando de viver as potencialidades que a vida “do lado de fora” pode nos proporcionar. Viver assombrado pelo medo, de forma que fiquemos enclausurados e constantemente apreensivos, não é nem de perto o que significa sentir-se seguro.

O orgulho, neste perspectiva, embora ofereça um certo grau de segurança emocional para nosso ego, também funciona como um fator de aprisionamento ou de limitação de movimento. Nosso ego, neste caso, terá dificuldades de realizar seu movimento de rumar em direção à sua potencialidade máxima (alinhamento com o Self), pois há uma barreira que impede este movimento de expansão.

Da mesma forma que sentimos a necessidade de protegermos nossas posses (casas, carros etc) motivados pela percepção de insegurança em nossa realidade, nosso ego cria proteções emocionais baseados na sensação de insegurança vivenciadas por nossa psiquê. Essa insegurança pode ter razões muitas vezes inconscientes, e o processo de formação e embrutecimento do orgulho, assim como de outras defesas psíquicas, muitas vezes não é percebido pelo indivíduo.

Chegamos aqui a um ponto central da reflexão. Independentemente dos motivos que levaram o ego a formar uma estrutura de proteção em torno de si, esta sempre terá um papel limitador de crescimento aliado à proteção oferecida. Assim, a dicotomia aparente no inicio da reflexão não é de todo real; o orgulho sempre manifesta em conjunto seu lado positivo e seu lado negativo. Toda vez que somos tomados pelo orgulho uma parte frágil do nosso ego foi atingida, o que faz a necessidade da proteção ser reforçada.

Na segunda parte desta reflexão, veremos algumas pistas se como trabalhar o orgulho no processo de autodesenvolvimento.


Até lá.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Espiritualidade e meio ambiente (Parte II)


Este texto é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui Espiritualidade e Meio Ambiente (Parte I)

A cabeça pensa onde os pés pisam. Essa frase do Frei Beto sempre foi marcante para mim, e serve de base para esta reflexão. Se a relação da sociedade com o meio ambiente é a base de criação de todos os sistemas de crença, valores e códigos morais, o que podemos entender sobre sociedade e modo de vida atuais?

Na contemporaneidade, as questões ambientais têm foco privilegiado nas discussões governamentais, das empresas e do terceiro setor. No entanto, é comum que tragédias ambientais evitáveis continuem ocorrendo pelo mundo. O que isso revela sobre a relação de nossa sociedade com o meio ambiente?





Neste momento mais da metade da população mundial vive em ambientes urbanos. Esse movimento de urbanização da população tende a aumentar nos próximos anos. Como isso impacta as expressões espirituais?

Como já dito anteriormente, as cidades estão inseridas no meio ambiente, embora muitas vezes não sejam entendidas dessa forma. Devido ao alto grau de modificações antrópicas, necessárias para a produção do modo de vida atual, o ambiente urbano muitas vezes pode parecer um cenário inadequado para se pensar a relação sociedade-natureza-espiritualidade.

A concepção da supremacia humana sobre a natureza, resultado do processo histórico da sociedade contemporânea, possibilitou o surgimento de correntes de pensamento que se opõe a qualquer forma de defesa da melhoria das relações homem-natureza, vendo na preservação ambiental um empecilho ao desenvolvimento da sociedade. De fato, podemos perceber nos últimos tempos o surgimento de novas formas de espiritualidade que muitas vezes não se vêem como reflexo das relações homem-natureza.

Esta idéia, no entanto, não foi capaz de extinguir o anseio de muitos indivíduos e grupos que preservaram em suas expressões espirituais o entendimento de que a visão holística e integrativa é a chave do equilíbrio das sociedades humanas com a natureza. Constantemente vemos surgirem e ressurgirem movimentos espiritualistas que pretendem uma relação mais harmoniosa com a natureza. Muitas dessas expressões espiritualistas advogam por um retorno à formas religiosas e  místicas próprias da antiguidade.

É extremamente relevante que nos aprofundemos no entendimento da relação sociedade-natureza-espiritualidade, porém é necessário que este processo se dê de forma viável. Não é mais possível retornar a um estado no qual não havia o desenvolvimento científico tecnológico que temos hoje, nem retomar a visão da natureza dos povos primitivos. Da mesma forma, não é possível que continuamos a perpetuar o entendimento contemporâneo sobre estas questões. Precisamos ressignificar a relação da natureza com o sagrado, mas não podemos nos esquecer do processo que nos trouxe até aqui. Só assim podemos pensar em possíveis futuros.

Neste momento estamos presenciando uma grande crise civilizatória. O modo de vida moderno não mais é capaz de atender a todos os anseios da humanidade. Muito se especula sobre os rumos que a humanidade tomará daqui para frente, e muitas iniciativas tem se somado no sentido de pensar e planejar quais os próximos passos para que o desenvolvimento das sociedades humanas se dê de forma mais harmoniosa, inclusive com o meio ambiente.

A Carta da Terra, uma declaração internacional de valores e princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, nos apresenta pontos chaves para entendermos os desafios postos nesse momento ímpar de nossa história.

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. ... Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz.”

E o que todo este debate tem a ver com a espiritualidade? A dimensão transcendental da vida humana é alicerce para qualquer discussão que passe por pensar em projetos de futuro que permeiem todos os grupos e sociedades da terra.

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. … A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado”.

Mas em que a espiritualidade pode colaborar com esse debate? Ou ainda, é papel das instituições ligadas à espiritualidade se debruçar sobre a relação da humanidade com o meio ambiente?

A espiritualidade, em suas diversas formas, representa um direcionador da moral dos povos. A ideia de que fazemos parte de algo maior do que o que está aqui e agora tem um grande poder de influenciar a forma como as pessoas enxergam o futuro.

É nesse sentido que se faz necessária a intensificação dos debates sobre as questões ambientais pelas quais o mundo está passando. Se o meio ambiente é a fonte primária de inspiração para a espiritualidade humana, nada mais justa que esta história seja honrada com a reintegração com os ciclos naturais que permitiram a humanidade ampliar sua visão sobre si mesma.

Para finalizar, mais um trecho da Carta da Terra, que trata dos possíveis caminhos para o futuro a necessidade e de mudança civilizatória a nível global, na qual acredito que a espiritualidade pode ser a chave da mudança.

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”.