quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O Ciclo das águas e as Yabás


No começo de tudo estava a terra, ainda em ebulição. O vapor de água saído dos vulcões em erupção se condensou na atmosfera e fez a chuva. Esta, caindo dos céus, ora se entranhava na terra, ora escorria por cima dela, até encontrar os locais onde pudesse se acalentar. Formaram-se os rios, as lagoas e, por fim, o mar. Estas águas, sob o calor do sol, se transformam novamente em vapor, subindo aos céus e reiniciando o ciclo.

Das águas brotaram a vida. Ela é a fonte de tudo o que vive na terra. Sem ela, só é possível a escassez. As Yabás, divinas Mães d'água, compartilham o mistério do sagrado feminino, cada uma em sua faceta.



Iansã

Força impulsionadora, expansiva, disciplinada ao mesmo tempo intempestiva
Senhora do Quarto Crescente, Iansã guarda os segredos da Menina e da Guerreira
Condutora das nuvens de chuva, é ela quem direciona o que receberá, ou não, emoção e sentimento
Dona dos raios, destrói tudo o que não é essencial, transmutando pelo fogo, para o novo renasça
Com sua tempestade, agita o que está parado, derruba o que não tem raízes, revela o que está oculto
Com sua espada e escudo em mãos, nos ensina a lutar por tudo o que acreditamos ser o certo
Iansã é a menina dos Olhos de Oxum, a quem tem como modelo e de quem não pode se separar por muito tempo.

Oxum

Força animadora, amorosa, delicada, vaidosa, ardilosa e caprichosa
Senhora da Lua Cheia, Oxum guarda os segredos da Jovem e da Amante
Conduz as águas dos rios para que possam matar a sede, abrasar o calor e regar as plantações,
Na cachoeira, suas águas até então recatadas, mostram sua força e beleza, se sobressaindo à terra
Dona dos metais e das pedras preciosas, mostra que a beleza da vida precisa ser apreciada
Com seu espelho apontado voltado para dentro, nos ensina a olhar pro mais profundo de nós e a amar tudo o que vemos nele refletido.
Oxum gesta tudo o que existe para que Iemanjá possa trazer ao mundo

Iemanjá

Força acolhedora, cuidadosa, receptiva, tranquilizadora, despojada de si e despretensiosa
Senhora do Quarto Minguante, Iemanjá guarda os segredos da Mulher e da Esposa
Nas praias, aguarda ansiosa para receber seus filhos que retornam para visitá-la
No mar, recebe as águas provenientes de todas as fontes, e as mescla, sem fazer distinção
Mãe de todos os peixes, a quem criou para que sua casa nunca esteja vazia e sempre tenha a quem cuidar
Com seu espelho apontado para para fora, nos ensina a olhar aos demais como realmente são e acolher tudo o que ali esteja refletido
Iemanjá acolhe os filhos de Nanã até que essa possa recebê-los novamente

Nanã

Força disciplinadora, paciente, restritiva, castradora, mantenedora e preservadora
Senhora da Lua Nova, Nanã guarda os segredos da Anciã e da Feiticeira
Nos pântanos decompõe o que já não tem mais vida, e disponibiliza os nutrientes para serem reaproveitados
Nos manguezais, acolhe a vida ainda frágil, que depois seguirá para o mar
Suas águas subterrâneas são os reservatórios que abastecem a terra na ausência de Chuva
Suas cavernas nos ensinam que com o tempo as águas podem perfurar até a mais dura rocha
Nanã, senhora da noite e da magia, é quem ensina Iansã a cobrir o sol para despejar suas águas na terra.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Umbanda e a identidade nacional

Tendo sua origem no sincretismo de diversos sistemas religiosos presentes em solo nacional (catolicismo, espiritismo, cultos de Nação e cultos indígenas) e, em grande medida, constituintes da identidade religiosa brasileira, a Umbanda acaba por representar em sua estrutura arquetípica as diversas faces do que é ser brasileiro.

Os primeiros arquétipos apresentados na Umbanda são representações de seus povos formadores (ameríndios, africanos e europeus), sendo que com o passar do tempo a matriz arquetípica se ampliou para comportar representações dos diversos grupos que compõe a brasilidade regional.



Cabe também um destaque para regiões com grande fluxo migratório, como o estado de São Paulo, onde todos estes matizes regionais se misturam. Afinal, onde mais o migrante nordestino faria sentido enquanto arquétipo (linha dos baianos) que o local para o qual destinou-se a migração?

Foram agregados ainda, uma gama de outros matizes místicos, filosóficos e religiosos estrangeiros (principalmente das tradições orientais) a medida que estes foram integrados ao contexto religioso nacional, dando à Umbanda uma característica marcante: a adaptabilidade sociocultural

Assim, a estrutura arquetípica encontrada nas umbandas do norte, é diferente daquela encontrada no sul. Mesmo entre as diferentes escolas umbandistas, também há variações, numa mesma região geográfica.

Precisamos entender como o imaginário popular concebe as representações arquetípicas para podermos entender porque os boiadeiros do sul são gaúchos pampeiros, enquanto no nordeste são sertanejos e no centro-oeste são os vaqueiros do pantanal, cada qual com seu conjunto de símbolos e modos de vida. Da mesma forma, os ribeirinhos da amazônia, os caiçaras do sudeste e os jangadeiros do nordeste representam diferentes formas de ser povo da água, ou simplesmente marinheiros.

Pra entender a Umbanda é necessário antes de tudo entender o Brasil, sua história, sua identidade, seus múltiplos universos. Mas não apenas os aspectos acadêmicos dessa discussão, mas o conhecimento profundo e cotidiano da brasilidade subjugada, pois o traço que une todos os arquétipos é a não centralidade na história oficial; povos periféricos, excluídos e que precisaram lutar para ter um lugar ao sol na história da nação.

Dessa forma, entendemos que lutar contra as desigualdades, se colocando a favor dos humildes e desamparados é um conceito chave para a Umbanda, presente desde sua fundação e bastante presente em sua estrutura de trabalho.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Espelhos d'água


Dentro do mar tem rio. Dentro de mim tem o quê?*

Na mitologia Iorubana, fonte que alimenta tanto a umbanda quanto o candomblé Ketu, o rio é domínio de Oxum e o mar é domínio de Iemanjá. Duas orixás ligadas aos mistérios aquáticos, à maternidade e também à vaidade. Ambas carregam seu precioso Abebê, o espelho com o qual refletem o que precisa ser mostrado. Cada qual a sua maneira.



Oxum carrega o espelho voltado para si, para que possa ver seu rosto. Contempla sua existência em toda sua complexidade, com seus defeitos e virtudes. Iemanjá carrega o espelho voltado para quem lhe olha, escondendo seu próprio rosto. Ela reflete o mais profundo da alma e entrega de volta ao olhar alheio.

Enquanto Oxum nos ensina a nos observar, nos conhecer e, por fim, nos amar, querendo bem tudo o que temos dentro de nós, Iemanjá nos ensina a observar, conhecer e amar aos demais e a acolher tudo aquilo que está além de nós.

Assim, como as águas dos rios seguem naturalmente em direção ao mar, o amor próprio nos auxilia, naturalmente, a amar os que estão ao nosso redor e a lhes auxiliar a ver o que tem de melhor em si mesmos.

Mas, se dentro do mar tem rio, em todo destino existe algo da jornada. Talvez um resquício do caminho percorrido, talvez indícios do novo caminho que se inicia. Talvez um e outro não sejam duas coisas distintas. Pois todo fim é também um recomeço.

Assim, a sagrada dança das água, em seu eterno ciclo, nos lembra que o precioso Abebê das Yabás reflete, sem julgamentos, o que se quer nele ver. As duas posições do espelho, hora apontando pra si, hora para os demais, são igualmente necessárias para compreender o todo. Cabe a cada um que acessa este mistério apontar o espelho para o que deseja enxergar naquele momento.
_____________________________________________
*Trecho da canção "Beira-mar", composta por Roberto Mendes e Capinan

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte II)

Este texto é a continuação da reflexão que pode ser acessada clicando aqui: O amor como instrumento de elevação espiritual (Parte I)



Entender o amor como instrumento de elevação espiritual exige, antes de tudo, que nos debrucemos um pouco mais sobre o que significa estar espiritualmente elevado, portanto sobre o que é esperado pelas forças superiores de cada ser humano em suas experiências encarnatórias. 

As primeiras pistas sobre isso nos são dadas pelas diversas doutrinas religiosas. As religiões tem, em geral, por fundamento essencial fazer o religamento da humanidade com a grande força criadora do universo, Deus. Em quase todas as teogonias e cosmogonias dos diversos sistemas mitológico-religiosos, este ser criador primordial pertence à uma dimensão muito afastada da humanidade. Muitas vezes esta separação é fruto da degradação da humanidade após a criação, não mais sendo digna de contemplar a verdadeira face de Deus. 

Mas, se Deus se manifesta através do amor, como podemos ter como ponto de partida para nossas concepções espirituais, que nos elevariam de nossa condição mundana, um conceito tão pouco amoroso? 

A separação entre a humanidade e Deus (sua origem primeira) não é, necessariamente, uma queda, um castigo ou maldição. Talvez a melhor forma de enxergar este processo seja como um fenômeno natural, como parte da criação do universo, resultante da própria natureza da criação divina e, de certa forma, como expressão da função dos seres humanos nos planos da criação. 

O mundo não foi feito para os seres humanos desfrutarem ao seu bel-prazer, ao contrário do que afirmam muitas das escrituras consideradas sagradas. O mundo foi feito por e para Deus, através de sua natureza exploratória. 

Nós, seres humanos, somos simplesmente (com as dores e delícias que este conceito evoca) uma forma de Deus conhecer e experienciar a totalidade de sua criação, explorando ao ponto máximo suas próprias leis, equações e algoritmos, conhecendo cada possível interação entre os inumeráveis elementos componentes do universo, reunindo todas as possibilidades de manifestação em si. Em outras palavras, a trajetória da humanidade é reflexo da própria trajetória divina de autoconhecimento e auto aprimoramento. 

A “queda” do Homem, embora possa nos trazer um sentimento de isolamento, frustração e falta de sentido (o que muitas vezes nos faz desviar da tarefa de reconexão com Deus para nos conectarmos a outras fontes de sentido arbitrárias), é um mal necessário para o cumprimento de nossa função na criação, ou talvez um efeito colateral deste processo. 

Se pensarmos a partir de um ponto de vista universalista, nos enxergando como partes integrantes do grande plano ou sistema divino, essa dor não tem razão de existir. Ela existe apenas enquanto experiencia de indivíduos e dos grupos de indivíduos, que, ao não compreenderem seu papel na criação, projeta para si e em si um sentimento de solidão e vazio. A falta de sentido na vida, tema tão recorrente na história humana e que diz muito mais sobre nossa percepção do fato do que sobre o fato em si. 

Saber que somos uma ferramenta divina é, ao contrário do que muitos poderiam pensar, extremamente libertador. A falsa ideia que os humanos são a peça central e insubstituível na criação de Deus, e que de alguma forma nós somos a razão de tudo o que foi criado, ao não ser correspondida pelas situações da vida, causa este sentimento de não encontrar seu lugar no mundo, de não saber ou não ser capaz de viver a vida como deveria. Por que, inevitavelmente, nos depararemos com a fragilidade dessa ideia antropocentrada extremista. 

Se somos parte de um infinito sistema emanado a partir de Deus, assim como as galáxias e as estrelas, os anjos e as divindades, as plantas e os animais, os átomos e as partículas, o melhor que podemos fazer, como boas engrenagens do sistema divino, é cumprirmos nossa função específica, ou seja, experienciar a criação em sua amplitude. Então começaremos a compreender que todos somos parte dos planos divinos e, por que não, do próprio Deus, e todos estamos conectados numa longa teia de correlações infinitas. E saberemos que o amor é a essência do universo. 

Neste ponto é onde podemos começar a correlacionar as coisas. Amor e elevação espiritual estão intimamente ligados, porque a segunda é a extensão natural do primeiro. Se o amor é a força anímica usada por Deus para a manifestação de sua criação e nossa missão é exatamente experienciar a totalidade desta mesma criação, podemos entender que nossa missão divina só pode ser atingida através do amor. 

Na terceira e última parte dessa reflexão pretendo apresentar mais algumas pistas de como amor e elevação espiritual se relacionam. 

Até lá.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Breve história da fundação da Umbanda


No dia 15 de novembro de 1908, na sede da Federação Espírita de Niterói, um jovem de 17 anos chamado Zélio Fernandino de Moraes, ao subverter as regras do ritual que seria realizado naquela noite, acabaria por dar inicio uma nova religião que viria a ser chamada de Umbanda.


Ainda na adolescência, o jovem Zélio de Moraes começou a preocupar sua família ao começar a apresentar um comportamento estranho. Por vezes sua personalidade mudava drasticamente, ora falando e se comportando como um indígena, ora como um senhor de muita idade.

Este comportamento fez com que seus pais buscassem ajuda médica para resolver o problema. Porém, após diversas consultas com psiquiatras, não foi identificada a causa para este comportamento, sendo que os médicos afirmavam que, do ponto de vista neurológico, não havia nada de errado com o jovem.

Orientados por sua formação católica, os pais de Zélio o levaram a um padre para que fosse exorcizado, acreditando ser uma manifestação espiritual negativa. Da mesma forma que acontecera com os médicos, os padres que analisaram o jovem não encontraram indícios de possessão demoníaca, embora também não pudessem explicar aqueles estranhos fenômenos.

Por fim, o jovem Zélio foi encaminhado para a Federação Espírita de sua cidade, em busca de explicações para o que acontecia. Ao chegar na sede da Federação, Zélio foi convidado a se sentar na mesa de trabalho, mas logo se levantou, contrariando as orientações ritualísticas da casa, e disse faltar algo naquela mesa. Foi até o jardim e trouxe uma rosa branca, que depositou sobre a mesa¹.

Dando-se início aos trabalhos, começaram a manifestar-se nos médiuns espíritos com fala enrolada, que se apresentaram como índios e antigos escravos africanos, que imediatamente foram comandados pelo dirigente da casa para se retirarem dos trabalhos, devido ao seu suposto atraso cultural.

É então que Zélio, assumindo a personalidade indígena que lhe era recorrente se levante e pergunta ao Presidente da Federação: “por que expulsam estes espíritos sem nem lhes escutar as palavras que tem a oferecer?”. Questionou ainda o por que os consideravam atrasados devido às suas cores e posições sociais enquanto vivos”.

Na tentativa de por fim ao episódio, um dos responsáveis pela mesa questionou o espírito desconhecido incorporado em Zélio:Afinal, porque o irmão fala nesses termos, pretendendo que esta mesa aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados?

A resposta manifestada através de Zélio foi: Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho (Zélio), para dar início a um culto em que estes pretos e índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos encarnados e desencarnados”.

O médium clarividente que acompanhava a sessão² então lhe questionou: “Por que fala como se fosse um deles se eu lhe vejo manifestado com vestes sacerdotais? E qual é o seu nome, irmão?”

A resposta a este questionamento foi: “O que vê em mim são restos de uma encarnação na qual fui o Frei Gabriel de Malagrida, queimado na fogueira da inquisição como herege. Mas em minha última encarnação, Deus me deu a graça de ter encarnado como índio brasileiro. E se querem saber meu nome, que seja este, Caboclo das 7 Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim”.



No dia seguinte, a casa de Zélio recebeu membros da Federação Espírita, parentes, amigos e uma multidão de desconhecidos, curiosos para presenciar o que aconteceria. Ás 20h o Caboclo das 7 Encruzilhadas se manifestou em Zélio e declarou que a partir daquele momento, uma nova religião se iniciava, na qual os espíritos de índios e de negros escravos poderiam trabalhar ajudando seus irmãos encarnados, independentemente da sua cor ou posição social. O grupo fundado naquela noite pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas recebeu o nome de Tenda Nossa Senhora da Piedade, pois assim como Maria acolheu a Jesus mesmo sabendo o grande sacrifício que lhe seria exigido, a Tenda acolheria aos que a ela recorressem em busca de ajuda, sem qualquer julgamento.

____________________________________________
1. Muitos historiadores e estudiosos de umbanda afirmam que este momento marca a diferenciação da Umbanda do Espiritismo, pelo uso de elementos físicos para serem energeticamente manipulados.

2. Naquela época era parte das sessões espiritas sempre ter um médium clarividente nas sessões para poder confirmar a manifestação dos espíritos e se estes aparentavam como diziam ser.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Direita e Esquerda na Umbanda


Acredito que todo mundo que já teve contato com a Umbanda em algum momento ouviu falar em direita e esquerda. Mas o que vem a ser isso?

Em todas as mitologias e cosmogonias tradicionais existe uma separação entre um arquétipo divino voltado aos aspectos analíticos, racionais e ordeiros de compreender o mundo e, de outro lado, um arquétipo divino mais intuitivo, emocional e caótico.

O primeiro arquétipo costuma estar ligado ao comedimento, ao respeito às regras, à exaltação das virtudes humanas, e à uma caminhada mais harmônica de expressão de sua verdade. Já o segundo costuma estar relacionado a subversão das normas impostas, quebra de padrões, tendencia aos exageros e aos vícios, além de uma certa dose de provocação
.

Para os gregos temos Apolo e Dionísio, para os nórdicos temos Baldur e Loki, e para os iorubanos¹ Oxalá e Exú.

Princípios estruturantes e desestruturantes, unidade e diversidade, centro e periferia, Oxalá e Exú comungam dos primórdios, do início do mundo, da natureza intraduzível de Olorum, a divindade suprema.

Estamos falando de duas formas de ser e agir distintas mas complementares: os movimentos de expansão (misericórdia) e restrição (rigor), tão trabalhados nos estudos sobre o misticismo judaico sintetizado nos ensinamentos da Cabala. Mas o que isso tem haver com a Umbanda?

No nosso caminho místico-religioso dentro da religião passamos necessariamente pelos dois movimentos, hora iremos trabalhar com a luz, hora com as trevas. Essas forças representam, respectivamente, a direita e a esquerda da Umbanda.

Ao contrário do que muita gente entende, a esquerda não promove o mal. Quando dizemos que as entidades da esquerda lidam com as trevas, estamos falando no trabalho de esgotamento e decantação das energias nocivas que todo ser humano carrega dentro de si, etapa necessária para que a caminhada em direção há luz possa acontecer. Enquanto a direita exalta o bem e as virtudes, a esquerda atua para negar o mal e os vícios.

Para facilitar o entendimento, usarei uma associação de palavras relacionadas aos dois princípios.

Direita
Esquerda
Expansão
Restrição
Externo
Interno
Consciente
Inconsciente
Princípio masculino
Princípio feminino
Sol
Lua
Claridade
Escuridão
Racional
Instintivo
Ordem
Caos
Céu
Terra
Afirmar o bem
Negar o mal
Fortalecer as virtudes
Dominar os Vícios

Dessa forma, direita e esquerda são força fundamentais, opostas porém complementares e interdependentes. O equilíbrio das duas polaridades é o que garante o universo se mantenha em pleno funcionamento.

Para finalizar, vale lembrar do conceito taoísta do Taiji, mas conhecido por suas polaridades, Yin e Yang, que nos ensina que em uma polaridade existe a semente da polaridade oposta e que uma pode se transformar na outra. 


Lembremos ainda que a figura do Taiji deve ser compreendida como estando em movimento, alternando-se eternamente numa dança sagrada do equilíbrio dos princípios divinos.

______________________________________
1. A religiosidade iorubana é a principal fonte de elementos místicos, mágicos e simbólicos africanos presentes na Umbanda.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Espiritualidade e Meio Ambiente (Parte I)

A proposta desta reflexão é apresentar alguns aspectos básicos na compreensão de como a espiritualidade e o meio ambiente se entrelaçam nas relações humanas e assim fomentar o debate. 

Quando pensamos na relação entre espiritualidade e meio ambiente muitas vezes tendemos a correlacionar atividades de cunho espiritualista com paisagens consideradas agradáveis. Uma ideia bastante comum é imaginar uma cena de meditação em um parque ou um belo jardim. Indo um pouco mais a fundo, pode vir à mente os rituais xamânicos realizados pelos povos indígenas em meio à floresta. Mas, quando pensamos em expressões espirituais, místicas e religiosas praticadas no meio urbano como ficam estas questões? 

Meio ambiente não é o que está fora 

Podemos entender o meio ambiente como o conjunto de condições, leis, influencias e interações de ordem física, química, biológica, social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas¹. É um sistema formado por elementos naturais e artificiais relacionados entre si e que existem num determinado local e momento. 

Mas pra além das definições técnicas, se faz necessária uma compreensão mais integrativa. É preciso entender primeiramente que o ser humano e todas as suas criações não estão separados do meio ambiente e que este compreende cada indivíduo, cada grupo, cada sociedade, cada país e assim por diante. O meio ambiente abrange tudo o que nos cerca e todas as relações que estabelecemos. 

Para aprofundar nossa visão sobre o tema, me parece sensato evocar o conceito de Ecologia Profunda, proposto pelo filósofo e ecologista norueguês Arne Næss, que argumenta que o meio ambiente se caracteriza pelo equilíbrio sutil de inter-relações complexas em que a existência de um organismo depende da existência de outros dentro dos ecossistemas. O princípio central da ecologia profunda é a crença de que o ambiente como um todo deve ser respeitado e considerado como tendo certos direitos inalienáveis de viver e florescer. 

Essa perspectiva de enxergar as relações ambientais defende que a natureza possui um valor intrínseco, independente de seu valor de uso pelo ser humano, prezando pela harmonia das sociedades humanas com o meio ambiente e pela igualdade entre as espécies. Neste sentido ao mesmo tempo que propõe que as relação homem-natureza se deem de forma ética, se contrapõe-se a visão de que o ser humano detém o domínio da natureza e que ela é apenas um recurso para satisfação de suas necessidades. 


Relação homem-ambiente e a cultura 

É a partir da relação e interação homem-ambiente que se estabeleceram os modos de vida das populações humanas antigas, o que significa dizer que todos os sistemas de crenças, valores e leis considerados primitivos refletiam com exatidão a relação que aquela sociedade desenvolvia com o meio ao seu redor, ou ainda que as religiões e filosofias da antiguidade não tinham outro foco senão harmonizar o homem com a natureza e a sociedade com o cosmos. O sucesso de uma sociedade estava estritamente ligado a harmonia dessa relação homem-natureza, pois saber utilizar os recursos naturais disponíveis da melhor forma era vital para a sobrevivência do grupo. A falha ao se adaptar ao seu meio foi a causa da destruição de diversas sociedades antigas. 

A humanidade da antiguidade aprendeu a observar, comparar, compreender e experimentar a natureza ao seu redor e, por analogia, aprendeu a fazer o mesmo seus próprios processos psíquicos e sociais. Os ensinamentos herméticos² nos explicam este processo através da “Lei da Correspondência”, que nos ensina que “o que está encima é como o que está embaixo, e o que está fora é como o que está dentro”. 


A natureza e o Sagrado 

O meio ambiente teve (e continua tendo) um papel significativo na construção de todos os sistemas de crenças e de práticas espirituais, das mais antigas às mais modernas. Desde as primeiras interpretações sobre o sagrado, marcadas pelo animismo e panteísmo nas populações consideradas primitivas, até os modernos sistemas de compreensão da transcendência do mundo moderno, nas quais tanto a ciência quanto a magia buscam explicações racionais e verificáveis para os fatos, é impossível afirmar que estas construções não passam pela percepção ambiental de seus praticantes. 

Com a modificação da relação da humanidade com o meio-ambiente se ao longo do tempo, a relação entre espiritualidade e meio-ambiente também se alterou. Da dependência passiva das forças naturais ao desenvolvimento de tecnologias que nos permitissem alterar o meio ambiente ao nosso bel-prazer (não sem consequências), podemos perceber que a humanidade se encontra cada vez menos conectada com os ciclos naturais do planeta. 

Um passo bastante significativo nessa mudança de relação do sagrado com o meio ambiente foi a consolidação da moral-judaico cristã, principalmente através da igreja católica, como grande orientadora do comportamento da sociedade ocidental. Diversos elementos presentes nesta forma de interpretar o mundo marcaram o pensamento ambiental da sociedade, principalmente no campo espiritual, entre eles a perseguição às crenças pagãs, em geral mais alicerçadas na relação com a natureza. 

O próprio berço das culturas e religiões abraâmicas se caracterizava na antiguidade como um ambiente inóspito, que exigia que qualquer grupo humano que ali se estabelecia desenvolvesse um código moral igualmente restritivo, a fim de garantir a sobrevivência do grupo. Assim, a cultura daquelas sociedades se estabeleceu na perspectiva de dominação sobre as adversidades ambientais e, por consequência, da psique e do comportamento humanos. Não faria nenhum sentido que neste ambiente se desenvolvesse uma cultura tão integrada à constante disponibilização de recursos naturais, portanto pouco restritiva, como a dos indígenas brasileiros, por exemplo. Nesse contexto a noção de natureza exuberante estaria ligada ao Paraíso, de onde o homem foi expulso por sua transgressão a Deus (o que justifica a condenação a um ambiente inóspito como espiação dos pecados) e recompensa pela boa conduta em vida. 


Somando a este processo a consolidação do processo de produção capitalista, a setorialização mais intensa da sociedade, e a mudança da maioria da população para ambientes urbanos, o contato com a natureza foi se tornando menos presente na vida humana.

De certa forma, esse afastamento da sociedade com o meio ambiente nas sociedades mais recentes, também impactou em novas formas de espiritualidades que muitas vezes não se veem mais como reflexo das relações homem-natureza.

Na próxima parte desta reflexão pretendo trazer alguns apontamentos de resgate da relação da espiritualidade com o meio ambiente.

Até lá
________________________________________________

1. Definição dada pela Resolução CONAMA 306/2002. 

2. O Hermetismo será abordado futuramente com mais profundidade. De forma resumida, podemos entender o Hermetismo como um conjunto de doutrinas simultaneamente filosóficas e místicas, proveniente do antigo Egito e atribuído a Hermes Trismegisto. Através do estudo e da prática da filosofia oculta e da magia pretende possibilitar a seus estudantes a evolução e expansão da consciência humana, penetrando assim nos mais profundos mistérios da consciência divina e da criação.